Walter Salles redefine conceito de road movie, fazendo de Na Estrada o reflexo de uma jornada interior

Na Estrada - pontocedecinema.blog.br

Sal Paradise, alter ego de Kerouac, interpretado por Sam Riley, e Dean Moriarty (Cassady), vivido por Garrett Hedlund

O maior desafio de Walter Salles, em Na Estrada, é manter-se ele mesmo, em sua escritura cinematográfica, diante do munumental e lancinante On The Road, fluxo literário de Jack Kerouac dado como infilmável, cujos direitos foram adquiridos pelo cineasta norte-americano Francis Ford Coppola no final dos anos 1970.

Mas o diretor de Diários de Motocicleta (2004), diferentemente de David Cronenberg – que em 1991 se meteu com o também infilmável Naked Lunch (Almoço Nu), de William S. Burroughs, ao dirigir o complexo, brilhante e subversivo Mistérios e Paixões -, não aceitou o desafio e quis ser fiel às mais de 300 páginas da narrativa de Kerouac, apontada como o momento inaugural do movimento beat.

Resultado: Na Estrada (On The Road) é um híbrido de literatura e cinema que consegue ser, como o livro, a súmula daquele novo tempo louco do pós-guerra em que um grupo de libertários, outsiders e inconformados, apaixonados por drogas, sexo, jazz e literatura, lá pelo final dos anos 1940, dava alguns dos primeiros sinais de uma revolução que se cristalizaria logo após, nos anos 60 e 70.

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Kristen Stewart, a estrela da série Crepúsculo, é Marylou

O próprio Jack Kerouac e seus pares escritores Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs são alguns dos principais nomes entre os chamados beatniks inseridos em cada frase/imagem de On The Road/Na Estrada: Cassady (Garrett Hedlund/ Dean Moriarty), Kerouac (Sam Riley/ Sal Paradise ), Ginsberg (Tom Sturridge/ Carlo Marx) e Burroughs (Viggo Mortensen/ Old Bull Lee).

Em torno deles gravitam nomes como LuAnne Henderson (Kristen Stewart/ Marylou), a primeira mulher de Cassidy; Al Hinkle (Danny Morgan/ Ed Dunkel), que comprou o carro onde se passam as principais aventuras de On The Road; Helen Hinkle (Elisabeth Moss/ Galatea Dunkel), a mulher de Al; Bea Franco (Alice Braga/ Terry), a namorada de Keruac, que desiste de botar o pé na estrada por causa do filho; e a infeliz Carolyn (Kirsten Dunst/ Camille), segunda mulher de Cassady.

Diante de tanta complexidade, Salles se mantém no equilíbrio.O que no início também parece infeliz e complicado, pelo número de personagens introduzidos quase ao mesmo tempo em uma narrativa agressiva e multifacetada, com profusão de cortes em movimento, vai se modificando até se tornar uma viagem cinematográfica não apenas de personagens em busca de autoconhecimento, mas de redefinição do road movie.

Imediatamente lembramos que Francis Ford Coppola, além de detentor dos direitos de On The Road e produtor de Na Estrada, é diretor de Tetro (2009), filme ao qual a atmosfera de Na Estrada se alinha, à proporção que se aproxima do final, na chegada ao México. Ali se incorpora o transe, que será definidor no relacionamento, a partir de então, entre Dean Moriarty e Sal Paradise, equivalente às revelações que se seguem à descida da Patagônia naquele filme do diretor de O Selvagem da Motocicleta.

O mérito cinematográfico de Walter Salles é nos dizer, desde as primeiras imagens, que mostram os pés de Sal Paradise, em travellings, andando na estrada de barro que o conduzirá ao amor de Terry e aos campos de algodão da Califórnia, que o conceito de road movie, antes mesmo de ser um subgênero cinematográfico, já estava inserido, como reflexo de uma jornada interior, no fluxo memorialístico de nomes como Virginia Woolf, James Joyce e Marcel Proust, as principais influências de Kerouac.

A presença de No Caminho de Swann (primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, obra romanesca definitiva de Proust), passeando pelas mãos de Sal e outros personagens do filme, orquestra esse conceito, esse sinal. Na Estrada é um filme superior porque corre no sentido de colocar o cinema no nível da litaratura e da grande arte. Walter Salles pode estar enganado, talvez ele seja mesmo pretensioso, mas suas imagens são sintomáticas.