A Crítica Cinematográfica na Bahia (1) – Walter da Silveira

Walter da Silveira - pontocedecinema.blog.br

Walter da Silveira com Nelson Pereira dos Santos

Publico a primeira parte da pesquisa que fiz para palestra sobre A Crítica Cinematográfica na Bahia na noite de quinta-feira, na Sala Walter da Silveira, integrando o Seminário de Crítica de Artes, realizado pela Fundação Cultural da Bahia (Funceb), que será encerrado hoje (23/9) com oficinas práticas ministradas pelo jornalista Ruy Gardnier, a partir das 18h30.

A Bahia cinematográfica, a partir do final dos anos 1940, viveu dias de glória. É preciso ressaltar nisso a presença de um mentor, Walter Raulino da Silveira, que se notabilizou como mestre ao inaugurar, no início dos anos 1950, o Clube de Cinema da Bahia.

Antes já se destacava com artigos, entre os quais, análises sobre a obra de Charles Chaplin, notabilizando-se, aos 20 anos – nasceu em 1915 – com O Novo Sentido da Arte de Chaplin, publicada no jornal da Associação Universitária da Bahia, uma reflexão em torno de Tempos Modernos, como ressalta o cineasta Jose Umberto no ensaio Repensar o Cinema, publicado no livro de Walter da Silveira, em 1978, que organizou, A História do Cinema Vista da Província.

Walter da Silveira começou a escrever sobre cinema aos 13 anos de idade, no jornal O Imparcial, com informações sobre lançamentos e acontecimentos ocorridos nos estúdios internacionais para, em seguida, nos anos 1930, começar a cristalizar o seu pensamento cinematográfico. E já nos anos 1940 manifestar intenções tão profundas quanto com relação à Função da Crítica Cinematográfica, ao refletir:

“A sensibilidade e a consciência do homem se deixam influir – e dirigir – por uma arte que corresponde, funcionalmente, ao espírito do tempo, mais do que qualquer outra. E por isso precisa ser discutida, comentada e vigiada (…) pela crítica ciente do seu papel, capaz de dominar, interpretar e explicar a teoria e a prática cinematográficas, apontando os erros, os desvios, as traições, os desvirtuamentos.”

Mais adiante, no mesmo artigo, de 1945, que compõe os quatro livros que mapeiam a obra do mestre, Walter da Silveira – O Eterno e o Efêmero, publicações também organizadas por Umberto, ele diz: “Precisamos criar no Brasil uma cultura cinematográfica nacional propícia ao desenvolvimento de nossa produção e à seleção da produção estrangeira. Mas essa cultura não será possível enquanto não for exercida a arma da crítica de modo permanente e sistematizada.”

Conforme destaca José Umberto em O Cinema Visto da Província, Walter da Silveira teve uma participação intelectual decisiva no processo da teoria e práxis do cinema no Brasil. “A sua teoria era estreitamente relacionada à realização, pois representou o pivô que engendrou uma escola de cinema que da ótica regional redundou numa perspectiva de contemporaneidade nacional, próxima da saga literária nordestina explodida na década de 30”.

É com Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, que se vislumbra o Cinema Novo. E nesse contexto se insere o cinema baiano, que surge forte no final dos anos 1950 nesse surto de criação proporcionado por Walter da Silveira e o Clube de Cinema da Bahia, que nasceu em 27 de junho de 1950, no auditório da Secretaria de Educação e Saúde. O filme inaugural foi Os Visitantes da Note, de Marcel Carné. Quem freqüentava: escritores, advogados, artistas plásticos, professores de medicina, universitários.

Logo em 1951 foi realizado o primeiro Festival de Cinema da Bahia. Depois o Clube de Cinema foi para o Cine Gloria (cujo nome foi mudado posteriormente para Tamoio, na Rua Ruy Barbosa, onde hoje funciona uma igreja evangélica), em seguida para o Guarani (na Praça Castro Alves, que se tornou Cinema Glauber Rocha e hoje é Espaço Unibanco Glauber Rocha), o Liceu e, enfim, já na segunda metade dos anos 60, para o Cine Popular, ambos fechados, em prédio que forma o complexo Liceu, hoje tombado pelo Iphan, no Centro Histórico.

A crítica na Bahia era efervescente. Do Clube de Cinema saíram nomes como Glauber Rocha (Jornal da Bahia, Diário de Notícias e Jornal do Brasil), Hamilton Correia (Diário de Notícias), José Gorender (que escrevia sob pseudônimo de Jerônimo de Almeida, no Jornal da Bahia), Orlando Senna e Plínio de Aguiar (Estado da Bahia) e Walter Webb (A Semana).

Havia um comprometimento não somente com a análise, a opinião, mas com os rumos do cinema brasileiro. Walter da Silveira participou da I Convenção da Crítica Brasileira, em 1960, em São Paulo Paulo, onde reclamou inclusive dos cineastas “o dever de assimilar a experiência artística e literária brasileira em seu processo de autonomia como saída para a crise estática do cinema brasileiro”.