Melancolia: Von Trier quer nos dizer que estamos sós. Irremediavelmente sós

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Justine (Kirsten Dunst, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz no último Festival de Cannes) em Melancolia

Melancolia, de Lars von Trier, é um dos grandes filmes do ano. Impossível passar batido, sem impacto, por esse que nos lembra Stanley Kubrick (2001 – Uma Odisseia no Espaço), Ingmar Bergman (Persona e Gritos e Sussurros) e outros cineastas, como o russo Andrei Tarkovsky e o dinamarquês Carl Dreyer, que fizeram do cinema uma sagração.

O filme percorre um caminho simbólico, embora com certa linearilidade, e nos conduz a um plano sobre o qual não conseguimos dar conta apenas com discursos e trivialidades. Von Trier transcende. E nos diz algo que espanta: o fim está próximo. E daí? Não há mais com que se preocupar.

Prestem atenção no prólogo do filme, que teve a carreira praticamente encerrada no Festival de Cannes por causa das declarações polêmicas, a favor do nazismo, do diretor Lars von Trier. Justine (Kirsten Dunst) acorda de um sono profundo e ao mesmo tempo está mergulhada em um sonho que depois se confirmará premonitório.

Subvertendo a lógica dialética, Trier nos apresenta primeiro a síntese, que retornará, efetivamente, no grand finale. E começa a desenvolver sua narrativa simétrica, desenhando um mundo em transformação contendo as irmãs Justine e Claire (Charlote Gainsbourg), que a um só tempo se opõem e se complementam, como polos em um universo de coisas e seres que se dissolvem, lentamente, enquanto se instauram a angústia e a perplexidade.

Estamos com medo e perto do fim. O planeta Melancolia, encoberto pelo Sol, aproxima-se lentamente da Terra. Aliás, o medo: essa já era uma das principais preocupações em Anticristo, o filme anterior de Von Trier, em que um casal se mete em uma mata para tentar superar o trauma da mulher, que entrou em depressão profunda, depois da morte acidental do filho.

Ambos pensam que saíram do poço, mas o Paraíso não conseguem recuperar jamais. A natureza, selvagem, acolhe e enlaça os dois em uma trama que transforma tudo. A partir de então é só o horror que Von Trier materializa. E agora, em Melancolia, o faz de forma deslumbrante: os pássaros que caem, os cavalos que relincham no cativeiro e os personagens de uma festa de casamento são esgrimidos à maneira de uma insólita representação da dor e do sacrifício, que terá que ser bela.

Justine é a noiva que chega atrasada para a comemoração, depois da cerimônia religiosa. Claire organiza a recepção. Em torno delas orbita uma fauna, representada em sua altivez (porque todos os homens são fracos) pela mãe (Charlotte Rampling), que na festa de casamento faz um discurso breve e definitivo sobre a inutilidade de tudo: “Aproveitem enquanto durar”.

Deflagra-se, então, o processo de melancolia em Justine que se saberá clarividente. Somente ela vê Antares, a grande estrela vermelha sob o signo de Capricórnio, monta aquele cavalo, que não quer cruzar a ponte, e entende o sobrinho, o filho de Claire, que inventa uma geringonça de pau e aço para ver o planeta passar. Somente ela sabe e convence Claire de que não há mais o que fazer, porque “estamos sós”. Irremediavelmente sós.

Melancolia
De Lars von Trier
Em cartaz: Circuito SaladeArte, UCI Orient Cinemas, Unibanco Glauber Rocha

Anticristo
De Lars von Trier
Onde encontrar: Vintage Videos