Você marcha, Expedito! Expedito, para onde?

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Fernando Bezerra ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília pela inerpretação de Expedito

É difícil encontrar algo tão contundente no cinema nacional, hoje, quanto Transeunte, o filme de Eryk Rocha exibido na noite de terça-feira na mostra competitiva do Panorama Internacional Coisa de Cinema e que ganhou três prêmios no último Festival de Brasília: melhor ator (para Fernando Bezerra), som e o da crítica, além de ser eleito pelo público e receber uma menção honrosa também da crítica no Festival Latino-Americano.

Mas Transeunte deveria receber outros e outros prêmios em Brasília, inclusive o de melhor filme e fotografia, porque é um trabalho de fôlego que impacta, descola-se de um mero exercício formal (que pretende ser e o é com sinceridade) de ficção com ares de documentário, para cravar no fundo da solidão humana o espírito libertado da angústia, enfim, impregnado de vida, ao falar de um aposentado em um vagar pelas ruas da cidade.

Parece que ele está no apagar das luzes. De passagem. E isso, é claro, não vale apenas para Expedito, mas são todos transeuntes aqueles com quem ele cruza e nós. O senhor de 65 anos de idade interpretado por Fernando Bezerra vive sozinho, silenciosamente. É só andar em um vaivém de sons, barulho de obras, de buzinas, de carros, de vozes do rádio que escuta pelo fone de ouvido. Não tem mais a mãe, é visitado no aniversário apenas pela sobrinha, e no rosto exibe o retrato marcado.

Enquanto ele se desloca, Eryk Rocha transita também sob um verniz, expondo aquela marca encarnada que é o aposentado investigado no poro, revelado pelos grãos expostos da luz de Miguel Vassy. Taí um filme que seria outro se não fosse em preto e branco e em certo sentido não parecesse um Bergman, um Dreyer, que, até onde eu posso chegar, foram eles os que melhor se armaram do formão para moldar o gesto e a fala, mas, sobretudo, investigar o personagem na alma.

A câmera de Vassy é isso – um formão que esculpe o retrato de Expedito e revela o sulco, o sentimento aparente no rosto sério, pétreo, sisudo. Aqui eu me lembro da admirável interpretação de Henry Fonda no papel do baterista Manny Balestrero, o honrado pai de família de O Homem Errado, de Alfred Hitchcock, que tem a vida revirada ao avesso ao ser confundido com um assaltante que na realidade é seu sósia.

Isso, o rosto de um corpo também revelado no detalhe de partes – das mãos, do peito, do dorso na hora do sexo. No detalhe dos pés e pernas cansadas, sob a água do banho que escorre, a câmera de Vassy é a textura e o suporte para a revelação desse sentimento captado por Eryk, que escuta a dor, ouve as queixas, espreita o sono e o ronco para, enfim, devolver a Expedito o riso, iluminar.

Assim como Drummond, Expedito poderia perguntar por que marcha. Mas prefere dizer, com Fernando Catatau, que é “aquele que aguenta pois espera para amar”. Sublime, mesmo, o personagem cantando os “passos solitários no salão” e deixando a cena, enquanto a câmera se afasta para um corte, agora sem som, no vazio, entre colunas. Expedito vai para onde?