Viagem à Itália, de Roberto Rossellini, ou onde tudo começou

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Ingrid Bergman em Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

Se existe uma referência básica em Cópia Fiel, não há como negar e isso vem sendo apontado ao longo dos meses: o filme Viagem à Itália, que o mestre do cinema neo-realista Roberto Rossellini fez, em 1953, com Ingrid Bergman e George Sanders na pele de um casal que entra em crise ao viajar a Nápoles para vender uma pequena vila que recebeu de herança de um tio.

Foi o terceiro de alguns filmes que Rossellini fez com Ingrid Bergman, por quem se apaixonou durante as filmagens de Stromboli, no final dos anos 40, resultando em um escândalo e rumorosas acusações de adultério, porque ambos eram comprometidos: ele, com a atriz Anna Magnani, a musa de seu filme mais famoso, Roma – Cidade Aberta. E ela com o marido, de quem se divorciou em 1949. Seguiuram Stromboli títulos como Europa’51 e (1951) e um episódio de Nós, as Mulheres.

Diretor de alguns marcos como Roma – Cidade Aberta, Paisà e Alemanha, Ano Zero, que formam uma trilogia neo-realista do diretor, Rossellini, em Viagem à Itália, já se mostra um cineasta em transição. Algo afastado dos princípios básicos da escola cinematográfica italiana do pós-guerra, como que lhe escapa o fato social característico de suas obra-primas inaugurais para dar lugar às idiossincrasias do amor burguês, o que, aliás, parece predominar nesta fase de núpcias e escândalo com Ingrid Bergman.

Da mesma maneira o diretor iraniano, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com Gosto de Cereja<, parece abandonar as influências neo-realistas de filmes anteriores e parte em busca de um novo elã, que inclui a adaptação a uma carreira internacional.

Àquela altura, era grande o crédito de Rossellini com uma nova geração de gênios do cinema que surgiam, notadamente dois dos principais nomes da nouvelle vague (prestes a explodir, no final dos anos 50), Jean-Luc Godard e Fraçois Truffaut, que, além de fazer filmes, escreviam sobre cinema. E o próprio Michelangelo Antonioni, praticamente contemporâneo de Rossellini, parece que adicionou lições de Viagem à Itália no périplo do casal em crise vivido por Moreau e Mastroianni em A Noite (1961).

Mas se foram lições, essas foram transformadoras e pouco para definir a importância do cinema de Antonioni, que, com a trilogia da incomunicabilidade, inaugurada com A Aventura (1960) e formada ainda por A Noite e O Eclipse (1962), como que implodiu tudo o que lhe antecedera – e era visto como exemplo de progressão dramática –, para dar luz a uma forma de conduzir o filme em sentido de anticlímax, mais tarde conhecida como antinarrativa, em que os tempos mortos tinham importência fundamental no movimento dos personagens.

Tempos mortos que consagrariam um cinema destinado a refletir, de maneira notável, sobre o tédio e os traumas da vida moderna, como Rossellini o fez, em uma outra esfera, em 1953, com Viagem à Itália. Um filme que guarda ainda o frescor de seus primeiros momentos por conta de um sentido particular em enunciar, desenvolver e resolver uma crise em pouco mais de 80 minutos. Viagem à Itália tem a região de Nápoles não apenas como um pano de fundo, mas seus costumes, sua arte, seus mistérios (como a Toscana de Cópia Fiel) como que formando um atrativo, um personagem a mais.

Vigem à Itália
Título original: Viaggio in Italia
Duração: 85 minutos
Versátil