Uma Doce Mentira é um clichê impregnado de autenticidade

Uma Doce Mentira - pontocedecinema.blog.br

Audrey Tautou é Émilie e Sami Bouajila, Jean: Uma Doce Mentira, filme dirigido por Pierre Salvadori

É preciso dizer que Uma Doce Mentira, dirigido pelo tunisiano radicado na França Pierre Salvadori, não traz grandes novidades. E isso não é problema, porque a narrativa do filme, que conta com a presença de Audrey Tautou (O Fabuloso Destino de Amelie Poulain) como uma das principais atrações, está cheia de pequenos sobressaltos e interesse mantidos até o fim, embora se trate de uma simples comédia romântica.

As inquietações são causadas por Émilie, a personagem de Tautou, sócia de um salão de beleza na pequena cidade de Sète, no sul da França, que recebe uma bela carta de amor anônima, escrita pelo empregado Jean (Sami Bouajila). Ela resolve jogar a carta no lixo, mas depois decide resgatá-la porque vê nela a possibilidade de aplacar o sofrimento da mãe, Maddy (Nathalie Baye), deprimida por ter sido abandonada pelo marido.

Émile copia a carta no computador e a envia para Maddy, que, num passe, transforma-se em outra mulher e resolve descobrir quem é o grande admirador. O tempo passa e Maddy quer receber outras cartas. A filha resolve, ela mesma, escrever. Mas algo desanda. Uma sucessão de erros, decepções e, enfim, uma contagiante sensação de que na vida tudo pode dar certo encadeiam-se nessa fábula sobre a paixão, o amor e a fidedignidade.

Uma Doce Mentira estaria fadado ao esquecimento fácil não fosse um pequeno detalhe que tem a ver com essa predisposição praticamente ausente nesse mundo de amizades, amantes e tantos contatos fugazes e virtuais. Há, ali, uma forma sutil e diferente de fazer uma advertência, um apelo à fidelidade e de nos dizer o que inúmeros filmes e romances já nos contaram sobre as ligações amorosas.

Émilie não se dá ao trabalho de ao menos tentar questionar sobre a pessoa que lhe mandou a carta. Diante de Jean, ela fica pequena. É mesmo como uma forma de se impor e dizer que é desejada que ela amassa o papel, transforma em bola e lança ao lixo, ao lado do amante secreto que despreza enquanto empregado. Porque ele já lhe havia despertado interesse. Mas ela não vislumbra admitir isso. Ao contrário, rechaça-o, porque Jean pertence a um outro mundo.

Escrita a mão pelo empregado, a carta vai se manter vigorosa, pertinente, mesmo quando chega a Maddy, copiada no computador. A outra, escrita por Émile, não terá força. Amassada, lançada ao lixo, permanecerá ali. É aí que se impõem todas as firulas folhetinescas que identificam o filme também com uma comédia de erros.

Pierre Salvadori azeita o encontro final entre o casal de amantes com os desentendimentos, as idas e vindas e as brigas-de-gato-e-rato que se encadeiam e se precipitam. Isso sempre acontece nesse tipo de comédia. É um lugar-comum. Um clichê, uma cópia mesmo, como a primeira carta que chega a Maddy. Mas em Uma Doce Mentira o clichê vem impregnado de autenticidade.