Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein, é uma lição de vida

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Jun (Huang) e Roberto (Darín) em Um Conto Chinês, coprodução entre Argentina e Espanha

O filme argentino Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein, alimenta-se do que pode exisitir de verdade por trás de uma notícia de jornal à primeira vista estapafúrdia. No prólogo, vemos uma tragédia provocada por uma vaca que cai do céu sobre um casal de jovens que noivam em um passeio de barco no rio de uma longínqua e idílica aldeia chinesa.

O filme então muda radicalmente. É um pouco como aquela ideia de criança que temos do lado de cá do planeta, de que se cavarmos um buraco vamos dar, enfim, no Japão, quem sabe na China. Borenztein, em um recurso estilístico dos mais simples, mostra a fachada de uma loja de ferragens em Buenos Aires virada de ponta-cabeça. E gira a câmera até a posição normal, em seguida movendo-a para a frente até encontrarmos ali dentro o dono, um homem de meia-idade.

Solitário, ranzinza, cheio de manias, até mesmo meio avarento, mas de espírito nobre, como revela logo no início a mulher que por ele está interessada, este homem, em um dos raros momentos de lazer em que observa aviões cruzando o céu de Buenos Aires, quem sabe, em direção à China, vai se deparar com o rapaz em questão, da idílica aldeia do início do filme, arremessado com violência, de um táxi, quase a seus pés. Como a vaca que cai do céu.

O homem de meia-idade é Roberto, interpretado por Ricardo Darín, ator excepcional sobre o qual não se precisa falar nada. O rapaz chinês é Jun (Ignacio Huang), que depois da tragédia está em Buenos Aires à procura de um daqueles tios que qualquer um de nós pode ter perdido em qualquer parte de mundo. A mulher é Mari (Muriel Santa Ana), que vai dar o toque final de comédia romântica ao filme.

Um Conto Chinês se desenrola em várias camadas, esgrimindo culturas diferentes, passando da observação da tragédia pura e simplesmente, com humor, às maluquices típicas do gênero, encontrando momentos de extrema ternura. O filme lembra vagamente alguns títulos despretensiosos do cinema dos anos 60 e 70 que, enfim, se revelaram ótimos entretenimentos.

Um exemplo é o francês O Magnífico, de Philippe de Broca, porque Roberto, em seu refúgio de solitário, inventa pequenas histórias, tendo ele mesmo e Mari como protagonistas, a partir daquelas notícias absurdas de jornais que lê e coleciona. Meio como o personagem de Jean-Paul Belmondo naquele filme de 1974, que faz um escritor que mistura ficção e realidade em torno de uma bela mulher interpretada por Jacqueline Bisset.

Roberto peregrina com Jun em busca de ajuda para encontrar o tio distante. Passa por algumas instâncias, em apelo fraternal pela causa, como a polícia, a comunidade chinesa em Buenos Aires e a embaixada da China, mas não consegue sensibilizar ninguém. Em Um Conto Chinês, Sebastián Borensztein parte de uma ideia simples, e também sem grandes pretensões autorias, para nos contar uma história trabalhada em um roteiro que não dispensa detalhes mínimos.

Enquanto os aviões cruzam o céu de Buenos Aires, numa referência a quão próximos podemos estar daqueles tópicos absurdos que lemos nos jornais, a figura da vaca, literalmente falando, para além das consequências trágicas do início do filme, se tornará elemento axial, detonador do espírito criativo, inventivo e, sobretudo, humano nessa parábola sobre a solidariedade e o desprendimento daqueles que estendem a mão. Simplesmente, uma lição de vida.