Tropicália está longe de ser um amontoado de imagens a que se dá o nome de documentário

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Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Gal Costa, Sérgio e Arnaldo Baptista: Tropicália, de Marcelo Machado

É fácil elencar o sem-número de imagens importantes, raras – e até mesmo inéditas -, que fazem parte de Tropicália, o documentário de Marcelo Machado, sem se dar conta sobre o que de cinema de fato existe no filme que ganhou estreia nacional na última sexta-feira.

E aí o perigo é pensar que Tropicália vale apenas por essas imagens, que vão da presença de tropicalistas no Festival de Jazz da Ilha de Wight, em 1970, a uma entrevista de Gilberto Gil e Caetano Veloso à televisão portuguesa, em 1969, em que Caetano declara o fim do tropicalismo:

– O nome do movimento só existe enquanto o movimento existe e o tropicalismo não existe mais como movimento.

Gil e Caetano estavam de passagem, a caminho do exílio em Londres, e essas imagens em Portugal funcionam no filme como uma espécie de prólogo bem-humorado de um inventário sobre o movimento tropicalista enquanto manifestação localizada em um núcleo (1967 a 1969) que se abre no tempo em referências e acontecimentos.

Exemplos disso são as duas músicas com imagens pós-69, escolhidas para encerrear o filme: It’s a Long Way, celebrizada por Caetano em Transa, e Back in Bahia, por Gil, no Expresso 2222, ambos os discos de 1972. E a apresentação das referências pré-69 acumuladas e absorvidas pelos tropicalistas em sua essência.

De Oswald (O Rei da Vela) e Mário de Andrade (Macunaíma) repaginados pelas leituras feitas por Zé Celso e Joaquim Pedro de Andrade, passando pelo manifesto poético, político e alegórico de Glauber Rocha (Terra em Transe), às instalações e os parangolés de Hélio Oiticica, cujo penetrável Tropicália inspirou o movimento.

O prólogo em Portugal é apenas uma demarcação, o sinal de um cinema inventivo que não diria tanto se se apoiasse aleatoriamente na música já abalizada. A canção, em Tropicália, está a serviço de uma narrativa que irá nos conduzir pelos caminhos do tropicalismo e seus tentáculos.

Basta citar:

1. A introdução de Tropicália, a música-manifesto de Caetano Veloso, é sistematicamente repetida – e interrompida -, enquanto o tropicalismo vaza em imagens e postulados antes de 1967;

2. Os acordes iniciais da releitura de Caetano para a trágica Coração Materno, de Vicente Celestino, perpassam o tempo de 1968 na tela, irrompem e retornam como um comentário dramático sobre o sentimento que dominou o país em relação à promulgação do Ato Institucional nº 5 em 13 de dezembro daquele ano.

O filme é feito de grafismos que de imediato evocam o trabalho do hoje quase esquecido designer Rogério Duarte. Manchas coloridas se derramam na tela, os fotogramas parecem adquirir uma textura própria indissociável do movimento tropicalista em suas fricções com o cinema marginal, a jovem guarda, a beatlemania, a bossa nova ou a música brasileira ancestral de Celestino e Luiz Gonzaga.

Tropicália é um filme com montagem eficiente e ritmo próprio que não deve ser confundido com o amontoado de imagens e informações acumuladas diante de uma tela de cinema que nos são impostas normalmente a título de documentário.