Quentin Tarantino reafirma-se como esteta do horror, da violência e da morte em Os Oito Odiados

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Kurt Russel e Samuel L. Jackson: graça e brutalidade nos domínios de Tarantino Foto: Divulgação

O cinema já foi pródigo em contar histórias de gente presa a um destino incontornável, dominada por uma atmosfera sufocante em meio a um ambiente pra lá de desagradável, mas Quentin Tarantino acrescenta uma dose de cinismo e sarcasmo ao tema.

Em “Os Oito Odiados”, ele faz de um grande armazém encravado no caminho do Oeste um entreposto de brutalidade e põe por terra o mito do herói do western norte-americano, figura que valorizou no filme anterior, “Django Livre” (2012).

Ninguém presta em Os Oito Odiados, produção de cerca de US$ 45 milhões, que reúne a um só tempo características de blockbuster e de cinema independente, como sempre acontece com os filmes de Tarantino. O diretor de ”Pulp Fiction” (1994) resolveu resgatar dessa vez o antigo formato panorâmico em 70 mm.

Mas isso é idiossincrasia de um esteta, um estilista: o filme, que estreou em 25 de dezembro em cerca de cem cinemas dos Estados Unidos, vai ser exibido na maioria das salas, inclusive norte-americanas, em versão digital, porque aquele sistema espetacular é hoje praticamente obsoleto no mundo inteiro.

Referências

Inacreditável como Tarantino consegue fazer um cinema de referências e ainda assim ser puro, ele mesmo, em Os Oito Odiados.

Um filme que começa navegando tranquilamente por elementos do western clássico – sem abandonar a influência de Sam Peckinpah e Sergio Leone, suas duas grandes recorrências –, o cineasta estende o tempo de ação em anticlimax interminável, que subverte o suspense à maneira de Alfred Hitchcock, alcança o enigma do romance policial e desemboca em um horror com elementos de grand guignol.

História corrosiva, carregada de uma chama de cinismo e esperança que se vê no personagem de Samuel L. Jackson, o major Marquis Warren, o caçador de recompensas, quando revela o conteúdo da carta que teria sido escrita para ele pelo presidente Abraham Lincoln.

E que ele (um soldado que lutou pela União na Guerra de Secessão) guardou como um trunfo, um salvo-conduto, um atestado de liberdade e igualdade naquele país fortemente marcado pela segregação racial.

Warren dirige-se a Red Rock com três bandidos mortos, em meio ao gelo, quando encontra a carruagem em que viaja o também caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), o carrasco, que transporta a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh).

Eles se bicam, mas encontram no interesse em comum uma forma de amparo, logo acrescida da presença de Chris Mannix (Walton Goggins), outro pária que está no destino para assumir o posto de xerife.

Mas antes de chegar, conduzidos pelo cocheiro O.B. (James Sparks), eles vão buscar refúgio da nevasca que se anuncia no armazém de Minnie, que deixou o local aos cuidados de Bob, o mexicano (Demién Bichir), Oswaldo Mobray, o pequeno ou o enforcador de Red Rock (Tim Roth), Joe Cage, o cowboy (Michael Madsen), e Sanford Smithers, o general confederado (Bruce Dern).

Capítulos

O lugar para onde acorrem ‘os oito odiados’ está sob marcação. Tarantino reinventa o indicativo espacial do western clássico, preparando o cenário para a grande surpresa, e amplia os momentos que antecedem e prenunciam a explosão de violência. São quase três horas de filme.

A narrativa é dividida em capítulos e um epílogo. Mas bem que se poderia dizer que é um drama (ou uma comedia) em três atos, cujo lance fundamental está contido no flashback que desarticula a narrativa tornando tênues os limites entre o teatro e o cinema.

O cineasta circunda com extrema habilidade um eixo que nada mais é que a expressão do próprio universo criativo. No mais, é tudo graça e brutalidade nos domínios de Tarantino.