Tarantino abandona narrativa fragmentada para fazer homenagem ao pai da linguagem cinematográfica

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Leonardo DiCaprio, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson e Jamie Foxx em Django Livre: cinema com início, meio e fim

Django Livre é um típico Quentin Tarantino inspirado nos spaghetti westerns dos anos 60/70, sobretudo o original de 1966, de Sérgio Corbucci, do qual aproveita o nome do personagem, a música original, o ator, Franco Nero, que aparece rapidamente como um mercador de escravos em um comentário bem-humorado sobre o título do filme antigo, e a ideia de vingança que, aliás, percorre não somente o gênero faroeste, mas cada fotograma do cinema do diretor norte-americano.

Não esqueça que o mote de Kill Bill é um provérbio Chinês: “A vingança é um prato que se come frio”. E é correndo atrás de pequenas vinganças que o caçador de recompensas alemão travestido de dentista, King Schultz (Christoph Waltz), encontrará, no estado do Texas, o escravo Django (Jamie Foxx), ao qual se associará para cumprir não apenas sua missão, mas resgatar a esposa dele das profundezas de uma fazenda do Missisipi.

Se é para falar de uma possível maturidade do diretor de Cães de Aluguel e Pulp Fiction, dado a estilhaçar a narrativa cinematográfica convencional, o brilhantismo vem de uma opção de Quentin Tarantino, por assim dizer, pela sobriedade. Por assim dizer, repito: Django Livre é o seu filme mais linear e original no sentido de que escapa a todas as referências, até mesmo do western americano, para ser uma homenagem maior à puerilidade do pai da linguagem cinematográfica, David Wark Griffith.

E com razão, a narrativa de Django Livre sai do Texas, em meio caminho para o Oeste americano, traçando trajetória contrária, em direção ao Tennessee e mais ao sul (no Mississipi), para se tornar um drama de feições épicas encravado no centro da luta abolicionista norte-americana, dois anos antes do início da guerra civil americana, tendo como baliza o amor de Django por Broomhilda (Kerry Washington), sua mulher.

Tarantino cria grandes sequências, cada uma delas composta, como o todo narrativo, de início, meio, clímax e desenlace, à maneira do cinema inventado por Griffith com O Nascimento de Uma Nação (1915), épico escravagista simpático aos latifundiários racistas do sul dos Estados Unidos, e Intolerância, espécie de mea culpa feita pelo cineasta norte-americano um ano depois, evocando a necessidade do amor e da fraternidade entre os homens.

Uma sequência é fundamental nesse novo arco envergado por Tarantino (não que isso seja novidade na trajetória do cineasta e do cinema em geral, mas aqui, em Django Livre, os signos referenciais à narrativa clássica, em sua nascente, estão mais à mostra): escravo liberto, Django chega à fazenda CandyLand, no Mississipi – em um afronta às leis gerais -, montado a cavalo, ao lado do caçador de recompensas King Schultz.

O também escravo liberto Stephen (Samuel L. Jackson) será imediatamente impedido de se manifestar contra, indignado, depois de apertar os olhos para ver melhor quem são os dois forasteiros que chegam em meio a um séquito comandado pelo rico proprietário Calvin Candie (Leonardo DCaprio).

A câmera desfocada sublinha a miopia de Stephen, escorre rapidamente em zoom e mostra em plano bem iluminado os cavaleiros, que estão ali para uma jornada de negociação em torno da compra de um escravo valioso, escondendo a verdadeira intenção de libertar a mulher de Django. Começa então uma longa sequência fundamental, toda ela marcada, em algum aspecto, pela manipulação dos sentidos do velho Stephen.

Escravo que se tornou algoz de seus irmãos e que já não consegue também ouvir muito bem, sua perspicácia e sentido de observação conduzirá à ação que desencadeia o clímax e o consequente desenlace do filme que é uma recriação da história de Sigiefried e Broomhilda, personagens da mitologia medieval germânica dos Nibelungos.

Revisto ao longo dos séculos em diversas obras, sob os mais variados aspectos, inclusive por Richard Wagner em ópera famosa, o tema foi tratado em dois filmes do cinema mudo alemão, Os Nibelungos I e II, realizados pelo mestre Fritz Lang que, para variar, como seus pares do expressionismo alemão, não se submeteu à narrativa clássica do cinema norte-americano. Mas isso é outra história. Fiquemos, por enquanto, com essa leva nova de violência, humor, ironia, sarcasmo e tragédia de um Tarantino mais azeitado do que nunca.