Norte-americano Stanley Kubrick mostra a beleza como um sintoma de desordem

Gloria Feita de Sangue - pontocedecinema.blog.br

Kirk Douglas interpreta o coronel Dax, envolvido em operação suicida na Primeira Guerra Mundial

Fotógrafo da revista Look, diretor de curtas em 16mm, no começo dos anos 50, Stanley Kubrick não tardaria a se destacar ao estrear no cinema com duas histórias fortes: A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss), com Frank Silvera e Irene Kane, e, sobretudo, O Grande Golpe (The Killing), com Sterling Hyden e Colen Gray, em que desarticula o tempo cinematográfico em uma trama de assalto a um hipódromo milimetricamente planejada.

Mas é com Glória Feita de Sangue (Paths of Glory), com Kirk Douglas, George McReady e Ralph Meeker, que se notabilizou como cineasta capaz de criar uma obra próxima dos grandes clássicos de guerra, a exemplo de A Grande Ilusão (1937), de Jean Renoir, pelo espírito humanista e caráter antibélico. É neste filme que Kirk Douglas, no papel do coronel Dax, citando o escritor e pensador Samuel Johnson (1709 a 1784), berra para McReady, o general Mireau, que o patriotismo é o último refúgio de um canalha.

O coronel fica em meio a uma operação que logo se consuma como desastrada, ordenada pelo general francês. Confrontado com o próprio erro e arrogância, Mireau quer inicialmente sacrificar o regimento, dado como covarde por recuar diante do ataque suicida na Primeira Guerra Mundial. Dax tenta de todas as formas demovê-lo, buscando uma solução para a medida drástica anunciada, no sentido de desarticular o discurso de dureza e inexorabilidade característico do general.

Kubrick, ali, demarcou sua direção com planos notáveis e movimentos de câmera como os grandes travellings em meio às trincheiras. Inaugurou um campo visual, uma forma de olhar. São conhecidos os pontos de fuga no cinema do cineasta norte-americano, que delimitam os espaços, em sua simetria, com frequência associados a ambientes assépticos, não sem razão, em meio a exageros tocantes que levam de um ponto outro, do perfeccionismo e elegância, simplesmente, ao cúmulo da caricatura.

São o máximo, sintomas de uma visão superior. Tido como cineasta bissexto, que demorava para lançar um filme, dado o culto à perfeição, é nessa atmosfera aparentemente salubre que está o âmago de Kubrick. Ele exagera na beleza para ressaltar a desordem.

É o que se pode ver, sempre como revelador de um universo particular, naqueles filmes associados diretamente à ideia de inutilidade da guerra: Dr. Fantástico, Nascido para Matar, Barry Lyndon, Spartacus. E não apenas nestes. Notadamente no fantástico mundo de 2001, aparentemente inalcançável, em que o computador Hal 9000 sucumbe, depois de desorganizar para tentar dominar.