Sombras é sinônimo de angústia e revolução

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Lelia (Lelia Goldoni), a jovem escritora de Sombras, um filme de John Cassavetes que revela o espírito de uma época

O cinema de John Cassavetes pega-nos de surpresa. Começa sempre no meio de uma cena, um caminho andado. Sombras (Shadows), realizado em 1959, o primeiro filme do diretor nova-iorquino que morreu em 1989 vítima de cirrose hepática, aos 59 anos, inaugura uma forma de narrar e de interpretar, sob o signo de uma época em que a tradição clássica confrontava-se com novas perspectivas. Uma delas, o vigor libertário proposto por um Jean-Luc Godard que se havia debatido, juntamente com os seus pares da nouvelle vague, com o cinema francês do pós-guerra e se debruçado sobretudo no noir e no filme B norte-americano para compor o sonho poético de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) pela ruas de Paris em Acossado (1959).

O sonho parece o mesmo de Ben (Ben Carruthers), o trompetista indefinido de Sombras, uma espécie de Poiccard de Cassavetes, que cruza bares, restaurantes, clubs enfumaçados e ruas em busca de um lugar ao sol – um dos vérticec de uma trinca de irmãos negros e desesperançados formada por Hugh (Hugh Hurd), o mais velho, um cantor que se defende como nome de segunda linha em shows decadentes, e pela jovem escritora Lelia (Lelia Goldoni), o lado mais frágil, de pele mais clara, que, numa breve sequência permeada por olhares e subentendidos, vai amargar o preconceito do namorado branco.

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A cidade de Nova York é um personagem à parte do filme

ARMADURA – Estamos aqui trafegando em um universo de artistas e em Nova York, a armadura poética de Cassavetes, como a Paris de Jean-Luc Godard. Sombras e Accosado, ambos os filmes, foram feitos quase simultaneamente. Godard construiu sua parábola de indefinições artístico-filosóficas quase ao sabor do tempo, tendo como representante um anti-herói moderno. Com improvisação, cortes em movimento e outras revoluções (técnicas e formais) a 24 quadros por segundo, à semelhança (e não sob a influência, já que partilhavam do espírito da época) de Cassavettes com sua câmera solta e atores e técnicos não-profissionais.

O produtor de Godard achou Acossado longo. O cineasta cortou sequências inteiras. O resultado foi aquela frenética e ousada contraposição de ritmo louco a planos sequências fenomenais, como o encontro de Poiccard e Patricia Franchini (Jean Seberg) nos Champs-Elysées, logo no início do filme. Cassavetes perambulou durante algum tempo, na segunda metade dos anos 1950, procurando apoio para o seu projeto. Como Godard, filmou com o mínimo possível. Encontrou gente com a qual formaria par por muito tempo: sua mulher, a atriz Gena Rowlands, que trabalharia em quase todos os filmes do diretor e estaria na frente das câmeras com ele somente a partir de Faces (1968), o ator Seymour Cassel, um dos produtores de Sombras, e o diretor de fotografia Al Ruban.

DEUS – Daí em diante transformou-se em uma espécie de deus do cinema alternativo, embora tivesse duas experiências em Hollywood. Sombras, uma pequena obra-prima de quase 90 minutos, dá o tom dessa lógica cassavetiana até mesmo na trilha sonora, de Charles Mingus, um dos grandes nomes do jazz que passeia com suas improvisações pelos clubs e cantos escuros de Nova York e em momentos solares, como quando Lelia se encontra com Tony (Anthony Ray) e David (David Pokitillow), no Central Park, dois homens que lhe fazem a corte, e foge em disparada justamente com Tony, aquele que lhe causará dissabor.

A sequência, com um certo halo libertário, ao mesmo tempo evoca o espírito sombrio de um provável triângulo amoroso de consequências imprevisíveis, que não se concretiza de fato. Antecipa, sim, o Jules et Jim (Uma Mulher Para Dois, 1961) de François Truffaut, outro marco da nouvelle vague, que investe primorosamente numa relação a três e vai compartilhar com Sombras a máxima existencialista – que povoa o universo e é propalada por um dos personagens literatos do filme de Cassavetes – de que o homem, diferente dos animais, é tomado pela angústia porque é consciente de sua existência e de sua potencial não-existência.

Sombras (Shadows)
De John Cassavetes
Duração: 87 minutos
Onde encontrar: Vintage Videos
Em exibição: Inicia mostra dedicada a John Cassavetes sexta (8/7), 18h, na Sala Walter da Silveira. Entreda Franca