O mito de Fausto e a Tetralogia do Poder segundo o cineasta russo Alexander Sokurov

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Visitado no teatro, na música, na literatura e no cinema, o mito de Fausto é agora explorado por Sokurov

Fausto, de Alexander Sokurov, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, no ano passado, e fecha a Tetralogia do Poder, formada ainda por Moloch (1999), Taurus (2000) e O Sol (2004), continua em pré-estreia em Salvador no próximo fim de semana, mas já é hora de a gente ir se ambientando com a temática do filme.

A revisita ao mito aumenta o interesse por essa figura lendária que encontrou sua mais famosa e definitiva representação em Goethe (1749-1832): Fausto, obra implacável do romantismo alemão até hoje tomada como o referencial quando se trata do tema.

As histórias relacionadas ao personagem remontam ao século XV, com os contos difundidos até aquele período em que viveu o médico, mágico e alquimista Johannes Georg Faust (1480-1540), sendo o tema, posteriormente, abordado pelo poeta e dramaturgo inglês pré-shakespereano Chistopher Marlowe (1564-1593) em A História Trágica de Doutor Fausto.

Difundido por meio dos mais variados formatos – diríamos, hoje, suportes -, o mito de Fausto passa pela arte de Rembrandt, pelo notório de Goethe e na música é representado por autores como Wagner (Faust), Berlioz (La Damnation de Faust), Schumann (Szenen aus Goethes Faust), Liszt (Faust-Symphonie) e Gounod (Faust).

No cinema, encontra um dos seus títulos mais representativos no Murnau de 1926, que, aliás, não está entre as melhores do mestre do expressionismo alemão, diretor de Nosferatu, Aurora e Tabu.

Veja o trailer do filme de Sokurov.

O mito espalha-se para diversas adaptações, inclusive citações livres como no István Szabó de Mephisto e no Alan Parker de Coração Satãnico, nos anos 1980, e na literatura de Thomas Mann (Doktor Faustus), Fernando Pessoa (Uma Tragédia Subjetiva) e Paul Valéry (Meu Fausto). No Brasil, temos o Filme Demência, um dos melhores de Carlos Reichenbach, também dos anos 80.

A história do homem que vendeu a alma ao diabo – este representado em Goethe por Mefistófeles, o demônio que o enche de poder e o faz traçar um caminho errante e dissoluto, só passível de remissão pelo amor de Margarida – seria, portanto, a representação do humano em seu sentimento mais profundo de impotência diante da natureza, de tudo o que o cerca, e da inexorabilidade da morte, o fato derradeiro, isolado, sem recuo ou volta.

Nesse particular se situa o interesse de Sokurov com sua Tetralogia do Poder, desde o seu primeiro opus, que encontra Moloch, uma divindade pagã referenciada na Bíblia, a quem se ofereciam sobretudo crianças em sacrifício, para representar Hitler. Em Moloch encontramos Hitler em 1942, mas deslocado de toda sua altivez em um castelo, nos Alpes da Bavária, na companhia de Joseph Goebbels, seu ministro da Propaganda, Martin Bormann, o assessor, e a amante, Eva Braun.

“Você não sabe ficar sozinho. Sem uma boa plateia, você não passa de um cadáver”, diz Eva Braun para um Hitler impregnado de achaques, imperfeições, medos, hipocondríaco até a raiz, com enfermidades diagnosticadas pelos médicos que não conseguem contradizê-lo por medo. Moloch, o Hitler de Sokurov, é seguido por Taurus, que mostra Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, dilacerado em seus últimos dias à sombra das disputas que marcaram as figuras de Stalin e Trotsky.

Tendo como companhia mais íntima apenas a mulher, Nadia, Lenin é retratado em Taurus com uma fotografia deslumbrante. Ao mesmo tempo que remetem ao esmaecido, fosco do cinema mudo, as imagens nos desarticulam, mostrando quadros de cenas e sequências em expressivas camadas de profundidade de campo. De fato, essa remissão à imagem ancestral já se insinuara com certa grandeza em Moloch, mas adquire maior representatividade em Taurus.

Taurus precede O Sol (2004), retrato do imperador japonês Hirohíto considerado pelo povo como um deus e que resistiu à rendição no final da Segunda Guerra. O filme ressalta o conflito que se estabelece entre o chefe da nação, que se recusa a encontrar sua natureza humana em contraposição aos demais, não-japoneses, que não reconhece nele o divino.

Em Veneza, conforme relatos da imprensa, houve quem se levantasse contra a decisão do júri em prol de Sokurov, alguns apontando que o diretor de Arca Russa recebeu o prêmio mais pelo conjunto da obra. Mas o presidente do júri, Darren Aronofsky, atestou a unanimidade da escolha ao dizer que Fausto, de Sokurov, é um daqueles filmes “que transformam você para sempre”. Aguardamos, portanto, a estreia de Fausto em Salvador.

O quê: Moloch, Taurus, O Sol e Fausto
De quem: Alexander Sokurov
Onde encontrar: Fausto, pré-estreia no Circuito Sala de Arte (fim de semana); Moloch, Taurus e O Sol, na Vintage Videos