Os 30 anos de Pixote e a importância de Babenco

Pixote – A Lei do Mais Fraco - pontocedecinema.blog.br

Fernando Ramos da Silva, o Pixote, e Marília Pêra, Sueli, no filme lançado por Hector Babenco em 1981

Bela lembrança, a de André De Paula Eduardo em seu blog, Byron & Shelley, sobre os 30 anos de Pixote – A Lei do Mais Fraco. Tenho meus filmes preferidos de Hector Babenco. Eles se chamam Ironweed e Brincando nos Campos do Senhor. Foram produções dirigidas com capital norte-americano. O diretor obteve esta senha justamente por causa do sucesso que Pixote fez nos Estados Unidos, algum tempo depois de lançado no Brasil, em 1981, o que alçou Marília Pêra, com justíssima razão, ao status de estrela internacional nos circuitos alternativos norte-americanos.

Ambos os filmes, Ironweed e Brincando nos Campos do Senhor, foram meio que esnobados. Tudo bem, para os Estados Unidos, se a questão era revelar, em Pixote, as entranhas sociais do mundo em subdesenvolvimento. Mas Ironweed e Brincando tocavam o dedo na ferida norte-americana; não se enquadraram, portanto, numa cartilha.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Basta lembrar o exemplo de Michelangelo Antonioni, que ganhou a Palma de Ouro com Blow Up, mas, logo em seguida, na virada dos anos 60 para os 70, teve o seu Zabriskie Point detonado por ser todo ele, com a devida sequencia final da explosão de uma mansão com os mais diversos símbolos de consumismo que guardava, uma crítica ácida ao american way of life.

Ironweed - pontocedecinema.blog.br

Meryl Streep e Jack Nicholson em Ironweed

A GRANDEZA DE IRONWEED – O filme, que tem Meryl Streep e Jack Nicholson à frente do elenco, no papel de um casal em frangalhos em pleno período de miséria social e econômica dos Estados Unidos pós-crack da Bolsa de Nova York, em 1929, foi visto como difícil e pachorrento.

Ironweed teve indicações para prêmio de interpretação no Oscar e no Globo de Ouro. Não suportaram ver suas mazelas tão expostas. Chegou-nos embalado pronto para a rejeição com a história daqueles que perambulavam como mendigos pelas ruas de Albany.

Uma narrativa tão densa quanto precisa sobre o que realmente levou o casal àquele estado lastimável. Inesquecível o momento em que a personagem de Maryl Streep canta He´s Me Pal em um restaurante e como que se entranham presente de agonia e passado de glória que nos levam a um misto de surpresa e encantamento.

É o mesmo que se pode dizer sobre Brincando nos Campos do Senhor, que alcança um grupo de missionários norte-americanos em ação no Brasil e seus acessos de graça e desespero ao se defrontar com uma realidade áspera, inesperada, na Amazônia, em confronto com índios e aventureiros. Nomes como Kathy Bates, Daryl Hannah, John Lithgow, Aidan Quinn e Tom Berenger integram o elenco internacional deste filme de impressionante constância na memória pela forma com que encontra e sublinha, em sequências antológicas, os ímpetos de quantos ali presentes para salvar precisam mesmo é de consolo e remissão.

Mas admiro a arte do diretor de O Rei da Noite desde os seus primódios, passando por Lucio Flávio – O Passageiro da Agonia e, claro, Pixote. Até os mais novos, do desprezado Carandiru a Coração Iluminado e O Passado. Pixote foi um filme muito visto quando do seu lançamento no Brasil, elogiado e, de certa forma, esnobado, por ter um corte de thriller prisional norte-americano. Bate na memória a grandeza da interpretação de Marília Pêra e sua peregrinação, a um só tempo maternal e desnaturada, com as crianças e adolescentes que se debatiam e reivindicavam, graves, seu lugar no futuro. A sequência dos garotos refletindo sobre isso na praia, urgentes, com o olhar no horizonte e cantando Força Estranha, é antológica. O resgate de Pixote veio forte quando ele foi apontado pela crítica como um dos melhores filmes dos anos 80, nos EUA.

Muito pertinente a lembrança da importância deste que é, seguramente, um dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos.