Sobre Brasil, Argentina e o bom roteiro de cinema que não cai do céu

Um Conto Chinês - pontocedecinema.blog.br

Ricardo Darín, em material promocional, aparece ao lado da vaca que cai do céu em Um Conto Chinês

Não se trata de querer fazer do cinema um clássico do tipo Brasil X Argentina. Odeio isso: Rio X São Paulo, Bahia X Pernambuco. Mas o cinema argentino já nos deu, somente este ano, alguns títulos bem em conta.

Além de Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual, de Gustavo Taretto, O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat, e Chuva, de Paula Hernandez, assistimos a Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein.

Não é preciso dizer que o problema do filme brasileiro passa pelo roteiro, ladainha que se canta pelo menos desde os anos 1960. De lá para cá, as coisas melhoraram em certo sentido. Mas fica sempre no ar a sensação de que, no Brasil, se pode sempre fazer muito mais pelos filmes brasileiros. Bons roteiros, no entanto, não caem do céu, como a vaca de Um Conto Chinês.

Não vi ali qualquer intenção de uma obra-prima, mas o filme de Sebastián Borensztein, como resultado final, acredito, é muito mais do que gostaria de ser. E isso é raro, pois quase sempre acontece o contrário, sobretudo com as pessoas que se acham.

A gente não está acostumado a dizer que “fulano de tal se acha”, no sentido de que ele é alguém que faz um conceito de si elevado, que não condiz com o que o senso comum sobre ele? Pois é: há filmes que se acham.

E nisso podemos incluir uma parte do que se faz em cinema (ou audiovisual), hoje, no Brasil. E talvez seja justamente esse conceito auto-referente, ensimesmado (no mau sentido), que os obrigue a chegar a um resultado frouxo nas telas de cinema, a falta de preocupação com o desenvolvimento de histórias bem contadas, com personagens convincentes como os de Um Conto Chinês.

Não quero nem falar dessa enxurrada de filmes de péssima qualidade que se valem do marketing pronto e do argumento espúrio somente para encher os cinemas e as burras. Deixe pra lá. Quero dizer que se a vaca cai do céu em Um Conto Chinês não é por milagre nem capricho do absurdo.

É porque existe uma razão, muito bem narrada no final do filme de Sebastián Borensztein, que nos enche de prazer e encanto. É disso que precisamos: de bons narradores que não queiram apenas encher… Ah, vá lá! Não sou eu quem vai expulsar os vendilhões do templo.

Do Brasil, entre os filmes lançados comercialmente nos cinemas baianos em 2012, relaciono, sobretudo, Transeunte, de Eryk Rocha, Crítico, de Kleber Mendonça Filho, e Ex Isto, de Cao Guimarães.

São filmes que não se acham. São, de fato, muito bons; mas, se sobra talento, falta apelo popular, o que não é um mal em si, acredito que isso é evidente. Como podar o engenho e a criatividade? Precisamos de arte, mais arte, sempre.

Mas a produção audiovisual brasileira de qualidade (ou de pretensa qualidade) está carente. Aliás, sempre foi carente de público. Então vamos dar em O Palhaço, o filme bem legal de Selton Mello que está naquele termo do cinema argentino que nos brinda com beleza e simplicidade, sem afrontas, sem marketing pronto.

Retomando Medianeras, sobre o qual escrevi esta semana, mesmo desenvolvido em 95 minutos, o filme, quando chega no final, parece ter dito muito mais do que o necessário, o que, necessariamente, não significa um problema, pois é uma questão subjetiva minha, não aceitar isso. Queria mais concisão.

Há muita história contada ali, muita conversa, sim, boa conversa, que, se fosse mais podada, resultaria em algo bem melhor. Por isso demorei tanto para escrever sobre o filme, do qual gostei muito. Me contaram que o longa surgiu de um curta-metragem feito antes por Taretto. Esse, sim, talvez seja o problema.

Medianeras, como Um Conto Chinês, é um filme que se pode levar em alta conta. Assim como As Canções, de Eduardo Coutinho, que assisti ontem, praticamente sozinho, no cinema. Uma pena. Mas isso é uma história que fica pra depois.