Shame, de Steve McQueen, é um filme sobre sentimento represado

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Michael Fassbender (Brandon) e Carey Mulligan (Sissy) no filme de Steve McQueen

Steve McQueen, o diretor de Shame, está certo. Não vejo por que abordar a história de um homem viciado em sexo com a pulsação que o tema, aparentemente, requer. Michael Fassbender no papel de Brandon Sullivan, que lhe deu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza, é um atormentado, mas firme em sua condição.

Em certo sentido, no inverso, claro, Shame me remeteu a Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, o filme que encantou o mundo, no final dos anos 60, e provocou tanta discussão, inclusive, por uma estetização da violência até então pouco em voga.

Ganhou, no Brasil, um título primoroso, que insinuava o que esperava aquele casal de assaltantes que se dava muito bem nas armas e pouco no amor. A rajada se refere às balas, mas também ao fluxo seminal que, enfim, se metaforiza na explosão de tiros de metralhadoras.

Acho mesmo que sexo e violência nunca se deram tão bem no final: Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967), de Arthur Penn.

Shame não ganhou tradução brasileira. Mas não sei por que não traduzir, não chamar por Vergonha. Brandon Sullivan vai em sentido contrário ao de Clyde Barrow (Warren Beatty), o assaltante que na cama nega bala à parceira, Bonnie Parker (Faye Dunaway).

Ele vive praticamente em condição priápica. Caça nos trens do metrô, paga prostitutas, se masturba em casa e no trabalho. E ainda gasta horas e horas com sexo e pornografia no computador. Em casa e no trabalho.

Brandon é um executivo solitário que um dia tem que conviver com Sissy (Carey Mulligan), sua irmã problemática que chega inadvertidamente ao apartamento onde mora, em Nova York. Emoções sempre à parte, o ímpeto dele ressente-se com a presença de Sissy, uma cantora um tanto quanto destroçada que busca afeto. Do qual ele corre léguas.

Talvez aí encontremos o sentido exato da coisa. Expressar seus sentimentos é equivalente, por exemplo, a ser surpreendido pela irmã se masturbando no banheiro. Tudo a ver com a solidão nos grandes centros, questões como individualismo, Nova York pontificando como um lugar nenhum, de todos à parte.

Sobretudo porque um dos melhores momentos é quando Sissy arranca de Brandon uma copiosa lágrima ao cantar New York, New York. E ninguém sabe, inicialmente, se ela é capaz de chegar ao final. E ela vai chegar.

Estamos a poucos momentos de ver Sissy, por necessidade de carinho e afeto, cometer um ato extremo. E de ver o irmão derramar-se em consequência disso. É esse o fluxo contido o tempo inteiro por Brandon. Sua vergonha, agora vencida, enfim, que jorra, copiosamente, como a rajada de Bonnie e Clyde. Shame é um filmaço!