Sagrado Segredo é uma forma de ver e viver na pele o caminho da paixão e do sacrifício de Jesus Cristo

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O filme de André Luiz Oliveira é uma busca pelo entendimento do sofrimento de Jesus Cristo na terra

A ideia de resgatar o quase obscuro O Requeijão (La Ricotta, 1963), de Pier Paolo Pasolini, episódio do longa Ro.Go.Pa.G, no Brasil intitulado Relações Humanas, vem da presença de Sagrado Segredo, novo filme do baiano André Luiz Oliveira, hoje radicado em Brasília.

O filme está em cartaz em Salvador (no Unibanco Glauber Rocha), no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília.

Inclassificavel, poderíamos dizer que Sagrado Segredo é documentário e ficção a um só tempo. Coloca no ato a representação da Via Sacra, na cidade de Planaltina, perto de Brasília. E uma equipe de filmagem que acorre para registrar a já tradicional encenação do Morro da Capelinha, que acontece há quase 40 anos.

Estamos, portanto, com os atores reais da Via Sacra, que não são atores – apenas um deles, o que interpreta Judas Iscariotes, é profissional -, mas dominados por um princípio de fé e santidade na representação da paixão e sacrifício de Jesus Cristo.

E com a equipe de cinema que, do irreal – o fato ficcional, a representação a céu aberto -, passa então a questionar e se deixa contaminar, como se de fato fosse contaminada, por aquele princípio de santidade; sobretudo o diretor do filme – que se perde, como os demais não-atores, nessa busca espiritual.

É uma forma de viver na pele o caminho da paixão e do sacrifício, a procura do seu entendimento, da compreensão enfim redimensionada pelo físico nuclear indiano Amit Goswami, um novo foco aberto no flanco narrativo de Sagrado Segredo, que ambiciona uma cosmovisão política, religiosa e científica em torno da ideia do Cristo.

De volta a O Requeijão e Pasolini: La Ricotta é uma obra devastadora e bem-humorada sobre as filmagens do sacrifício de Jesus Cristo, exercício de metalinguagem em que Orson Welles atua como ator no papel de um diretor à frente da equipe em meio a muita confusão por causa do requeijão do título.

A fotografia é em preto e branco. Há momentos cruciais, em cor, que elevam o quadro às mais belas composições da pintura universal.

Foi apenas um ensaio realizado por Pasolini, um intelectual marxista, ateu, para enfim orquestrar sua obra-prima, O Evangelho Segundo São Mateus (1964).

Melhor filme já feito sobre a vida de Jesus Cristo, inclusive porque é fiel, O Evangelho Segundo São Mateus era uma súmula poética, de fundo neo-realista e revolucionário – como, aliás, toda a obra do cineasta italiano.

Pasolini, ali, não apenas reinterpretava o papel de Cristo na terra, mas negligenciava a intangibilidade de sua persona conforme proposta pelos religiosos, e o cinema até então, em resguardo da santidade.

De volta a Sagrado Segredo: a luz estourada que invade o filme, fotografado por André Lavenère, e a montagem de Adelson Barreto, em um frisson de idas e vindas, nos dizem tudo sobre sua síntese dialética.

André Luiz Oliveira resgata aquela intangibilidade pré-pasoliniana, mas se imbui da explosão renovadora e libertária do Cristo de O Evangelho Segundo São Mateus.

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