O macaco original, aquele que sabe dizer não

Planeta dos Macacos – A Origem - pontocedecinema.blog.br

Mais do que um animalzinho domésticado, César revela calor, gesto, emoção, tudo de humano. Mas será ele cruel?

É preciso saber onde vai dar Planeta dos Macacos – A Origem, filme dirigido por Rupert Wyatt 10 anos depois de vir às telas o último produto adaptado do livro de Pierre Boulle, dirigido por Tim Burton. E 43 anos depois da primeira versão para o cinema, de Franklyn J. Schaffner, com Charlton Heston no papel do astronauta Taylor, sobrevivente de uma missão espacial, que descobria, afinal, que o planeta em que aportou, onde os macacos escravizavam os seres humanos, era a terra.

O filme de Burton não interessa muito. Foi um fracasso. As quatro histórias contadas, nos anos 1970, também no cinema, logo depois do sucesso do primeiro filme de Schaffner, também não. Não passam de curiosidades. Mas a ideia de Boulle virou fenômeno. Além de todas essas descritas, houve referências dela em um sem-número de produtos, da animação Os Simpsons ao humorístico brasileiro da Globo Planeta dos Homens (1976-1982), antológico por popularizar o macaco Sócrates, suas perguntas socráticas (“eu só queria entender”) e inúmeros outros bordões, entre eles, “o macaco está certo”.

Agora, Wyatt não apenas tenta encontrar os motivos que levaram àquela subversão do filme de 1968: pretende virar de ponta-cabeça a história descrita por Schaffner, acredito, em um segundo filme, mas, antes, como o nome já diz, ele vai na fonte de todos aqueles acontecimentos descritos em 1968 como ocorridos cerca de dois mil anos depois de nossos dias.

Em Planeta dos Macacos – A Origem, que transcorre nos dias de hoje, o cientista Will (James Franco) coordena pesquisas com vírus, fazendo testes em macacos, em busca da cura do mal de Alzheimer. As coisas não vão bem. Todos os animais têm que ser sacrificados, mas sobra um, o macaquinho César, que Will leva para casa e logo descobre que tem uma inteligência fora do comum.

Mais do que um animalzinho doméstico, César – que ganhou vida com a interpretação do ator Andy Serkis, a partir da tecnologia utilizada pela Weta Digital, através da qual também fez Gollum de O Senhor dos Anéis – revela calor, gesto, emoção, tudo de humano, até que diz a primeira palavra: não.

É o primeiro passo para se libertar, reunir o bando de macacos escravizados do filme, criar um levante, cujo clímax se dá em plena ponte Golden Gate, sobre a Baía de São Francisco, e colocar os seres humanos no bolso. Aliás, os humanos, na verdade, pouco têm a fazer nesse filme modesto em sua narrativa, como todo bom cinema b norte-americano, mas eletrizante.

César, enfim, sinaliza, ao subir no pé de sequoia mais alto e contemplar a baía, para uma nova aventura em que ele será o senhor dos macacos e de toda a criatura “inteligente” na terra, já que a experiência que o dotou de discernimento resulta em fracasso nos seres humanos.

Ótimo o momento com que se fecha Planeta dos Macacos – A Origem. Uma linha cruza a tela, em diagonal, de São Francisco a Nova York, explodindo pelo mundo em um processo de replicação viral que encontra ressonâncias nos magníficos créditos criados pelo genial designer gráfico Saul Bass, notadamente para Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock, e aqui dá conta do futuro do homem na terra.

O não de Cesar significa um basta. Basta de ser considerado feroz, basta de humilhação, coleiras e maus tratos. Ele sabe dizer aos seus comandados o momento certo de retroceder, o momento certo de executar. Espero que Rupert Wyatt e César sejam mais benevolentes com os humanos do que o foi Franklyn J. Schaffner.