Roman Polanski faz discurso sobre a civilização e a barbárie que nos habitam

Deus da Carnificina - pontocedecinema.blog.br

Nancy (Winslet) e Alan (Waltz) e Penelope (Foster) e Michael (Reilly) em Deus da Carnificina

Deus da Carnificina (Carnage) está longe de ser o melhor de Roman Polanski? Não sejamos malcriados: o filme baseado na peça Le Dieu du Carnage, de Yasmina Reza, é um autêntico Polanski, apesar da reverência a uma das mais prestigiadas autoras da atualidade.

O diretor polonês retoma aspectos de três dos seus mais importantes títulos – Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), que formam a ‘apartment trilogy’ -, ao colocar dois casais, fechados em um apartamento, tentando resolver questões relacionadas à briga dos filhos em um parque da cidade.

Repulsion era o ato de repugnância à sexualidade; Rosemary’s Baby, de subversão do encanto materno; Le Locataire, de negação do outro. Tudo isso levado ao extremo com impulsos de morbidez e sarcasmo que se alocam no discurso brevíssimo – e incisivo – do novo Polanski.

Entre Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz) e Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), em Deus da Carnificina, alternam-se relações de simpatia e animosidade.

Mas por que Nancy e Alan, que por diversas vezes dão por encerrado o assunto e se despedem, não conseguem aproveitar os momentos de simpatia e sair do apartamento do outro casal?

Como o ‘anjo exterminador’ que estende o manto negro sobre os comensais do filme Luis Buñuel, esse ‘deus da carnificina’ paira agora sobre a animosidade dos casais e os encurrala.

Carnage é a elaboração de um discurso em torno da civilização e da barbárie que nos habitam. Como, enfim, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e O Inquilino. Não importa onde estamos, no parque ou na sala de estar. Polansky faz cinema da palavra que aciona o olhar e libera uma bomba.

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