Roberto Pires de volta ao coração da cidade

Roberto Pires - pontocedecinema.blog.br

Antonio Pitanga e Luisa Maranhão em cena de A Grande Feira, um dos mais importantes filmes do Ciclo Baiano de Cinema

Não dá para passar batido pelos 10 anos de morte de Roberto Pires – o inventor, como queria Glauber Rocha –, completados em 27 de junho. Revi ontem à noite Redenção, o primeiro longa-metragem baiano, realizado em 1959, e A Grande Feira (1961), dois dos principais filmes do cineasta, que integram a caixa de DVDs lançada no ano passado em comemoração aos 100 anos do cinema baiano.

Em Redenção (1959), filme que até meados da década passada se pensava perdido, o destaque é mesmo o pioneirismo do diretor Roberto Pires, que inventou um sistema de som próprio, o Magnosom, e lentes anamórficas, a Igluscope, semelhantes ao cinemascope inaugurado no início dos anos 1950 com O Manto Sagrado. O enredo pode ser resumido em duas linhas e meia – e a linha narrativa se assemelha mesmo à puerilidade das primeiras décadas do cinema.

A Grande Feira, de 1961, é um recorte urbano em uma Bahia provinciana, cuja história se apoia nos rumores sobre a extinção ou a transferência da Feira de Água de Meninos. Foi um dos destaques do Ciclo Baiano de Cinema, um dos pontos altos da cinematografia brasileira na época, iniciado com Redenção e ao qual se incorporaram o cineasta Glauber Rocha e o produtor Rex Schindler para a realização de filmes como Barravento, que dá início ao barroquismo glauberiano, e Tocaia no Asfalto, outro thriller de Roberto Pires que se move pelo caminhos da corrupção política e da pistolagem.

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Cartaz do primeiro longa-metragem baiano

Redenção fala de dois rapazes que dão abrigo a um psicopata e suas implicações com a polícia, porque um deles, em liberdade condicional, receia voltar para a cadeia por ter matado o louco para defender a namorada do outro. É um thriller que tem seus pecados, mas, desde o início, alguns elementos de um bom filme mostram que, com o mínimo possível, estamos em um barco e em boas mãos.

A bagagem do assassino, a arma que um dos amigos carrega ao deixar o desconhecido em casa (sem saber que se trata de um criminoso), as chaves que esquece na fechadura, a caminhonete, o posto de gasolina e o frentista do posto de gasolina são sinais plantados como que à toa, ao longo de uma narrativa que, longe da informalidade, se resolve mesmo em pouco mais de 60 minutos.

Logo depois Roberto Pires faria A Grande Feira. Parece que encontrou o terreno. Se não mostra mãos de mestre, está ali um artífice e o seu instrumento plantados na Cidade Baixa, discernida, logo no início, nos versos de Cuíca de Santo Amaro. É a mesma Cidade Baixa onde Sérgio Machado se situou, mais de quarenta anos depois, para mostrar o triângulo amoroso vivido por Alice Braga, Wagner Moura e Lázaro Ramos.

Nesta primeira cena, o recuo da câmera, em um travelling brusco, mostra onde estamos embaixo do Elevador Lacerda, o coração da cidade, enquanto Milton Gaúcho se afasta da multidão que observa o cordelista e, como em um filme de Hitchcock, em direção à Rampa do Mercado, toma o barco e vai para a Feira de Água de Meninos, onde se processam todos os humores.

De bandidos definidos a escroques em formação, cafajestes, prostitutas e burguesinhas desestimuladas que buscam no brega das redondezas refúgio para o tédio, todos estão ali e transitam, naquele entrecho de A Grande Feira, em torno de roubos, agressões, trapaças e da ideia de que a feira, com seus quatro mil comerciantes, se acabaria ou seria queimada, como de fato aconteceu, anos depois, na vida real.

Naquele percurso de Milton Gaúcho, portanto, se situa o centro nervoso do filme de Roberto Pires: à beira-mar, até Água de Meninos ou um pouco mais, São Joaquim, para onde os grandes queriam mandar os comerciantes preparando o terreno para aumentar o cais do porto. E se fecha novamente, A Grande Feira, com o cordel de Cuíca de Santo Amaro, que revela a aura, o ar e a atmosfera da cidade, no coração da cidade.