Marshall põe mão pesada em Piratas do Caribe 4

Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas - pontocedecinema.blog.br

Penelope Cruz, Johnny Depp e Ian McShane na quarta versão de Piratas do Caribe. A série dá sinais de desgaste


O produtor é o mesmo, a direção de fotografia, a trilha sonora, os figurinos, o roteiro – tudo ganha o selo da franquia Piratas do Caribe. Então, Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas, a quarta saga das aventuras do pirata Jack Sparrow (Johnny Depp) em torno do império britânico, que chega aos cinemas nesta sexta-feira (20), deveria ostentar o mesmo selo de qualidade, certo? Não. Porque o diretor não é mais Gore Verbinski e o novo maestro da saga, Rob Marshall, a despeito de ser o autor de musicais como Chicago e Nine, é osso duro.

Aqui, Sparrow entra quase que a contragosto em uma aventura para encontrar a Fonte da Juventude, tão perseguida pelo explorador espanhol Ponce de Leon. Pelas mãos de uma farsante, Angelica (Penélope Cruz), um pretenso caso de amor antigo que usa seu nome para recrutar gente para a expedição no navio Vingança da Rainha Ana, Sparrow vai se debater com o lendário Barba Negra (Ian McShane), pai da moça que está precisando se valer dos benefícios da tal Fonte, e o redivivo capitão Barbossa (Geoffrey Rush), agora a serviço do rei George da Inglaterra.

FASCÍNIO – Gore Verbinski fez um filme muito interessante ao inaugurar a série Piratas do Caribe, em 2003. A Maldição do Pérola Negra apresenta-nos pelo menos dois personagens para se guardar em alta conta. Além do próprio Jack Sparrow, um poço de cinismo e bom humor – um pirata escorregadio, cheio de trejeitos e maneirismos, como, aliás, deveriam ser todos os piratas –, o capitão Barbossa de Geoffrey Rush, um arqui-inimigo preso à maldição de viver ad infinitum, ele e sua tripulação de esqueletos do confiscado navio Pérola Negra, como mortos-vivo navegando pelos mares do mundo.

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Geoffrey Rush: de volta na pele do capitão Barbossa

A Maldição do Pérola Negra revela os motivos das inconstâncias de Jack Sparrow, trabalha dentro de um limite de emoção exemplar e se desenvolve em um roteiro consistente, com absurdos e acontecimentos improváveis, mas em condições aceitáveis para provocar a emoção de qualquer tipo de público que busca diversão na sala de cinema.

Na época em que vi o filme lembrei muito de O Homem que Queria ser Rei (1975), de John Huston, e a associação se confirmou, porque em toda a série Piratas do Caribe, Sparrow parece dizer, com seu ar de bobo enfadado, com frases brilhantes que redesenham o óbvio e um ar blasé em relação a tudo, que o que vale mesmo é a aventura pela aventura. Porque dali não há de sobrar nada, como preconiza Huston em vários de seus filmes, com especial atenção para O Tesouro de Sierra Madre (1948).

FREIO – Com O Baú da Morte, Verbinski ainda manteve a linha, mas a franquia acionou o seu festival de interesses espúrios que alongou a trama do filme, trouxe ainda um personagem interessante, o gosmento Davy Jones (Bill Nighy), capitão de um outro navio assombrado, o Flying Dutchman, mas pesou a mão no festival de seres estranhos que só poderia desaguar na falta de limites de tempo (quase três horas de duração) e de personagens e situações bizarras de No Fim do Mundo. Agora, com Rob Marshal, em Navegando em Águas Misteriosas, põe-se um pouco de freio nisso. Até mesmo o recurso em 3D não salta tanto aos olhos, de forma aleatória e kitsch, quanto o de outras produções do momento.

Mas o que sobrava no Verbinski de A Maldição do Pérola Negra, uma certa leveza, falta em Marshal, logo ele, um diretor de musicais. Piratas do Caribe – Navegando em Águas Misteriosas começa até com uma inventiva sequência de julgamento que na realidade é uma farsa. Jack Sparrow encontra-se à beira de ser condenado à forca quando na realidade se descobre que o juiz é ele mesmo e em seu lugar está o velho companheiro Gibbs (Kevin McNally), integrante da tripulação do Pérola Negra.

Uma senha para uma perseguição que se quer eletrizante e em que a mise-en-scène, marcada pelos cortes precisos aliados ao bom humor e à movimentação dos personagens, deflagaria o encanto inicial do filme. Os momentos são interessantes, mas falta timing. O real sentido de corte e disposição de cenas que eleve e encante. Lembranças do Richard Lester de Os Três Mosqueteiros (1973), ou da série Os Caçadores da Arca Perdida (1981), vinham à mente como forma de vislumbrar o ótimo filme de aventuras em que Navegando em Águas Misteriosas poderia ainda se tornar.

A sequência da fuga em Londres tem lá sua graça, com momentos de engenhosidade que vão se perdendo em altos e baixos no filme que traz ainda um elenco de atores tão bem intencionados quanto pouco inspirados como Penelope Cruz, Sam Claflin, no papel de um missionário que tem muito pouco a dizer, e um bando de sereias que se transformam em vampiros e que apenas prometem ser a cereja do bolo de Rob Marshal. Depois de tantas continuações, fica a sensação de desgaste de uma série metida em tamanho lodaçal neste universo de piratas, zumbis e seres e formas absurdamente arrepiantes.