Raul – O Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho, é o retrato de um artista eternamente jovem

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Encontramos desde o Raul inquieto da meninice, fã de Elvis Presley, ao que morre em consequência de pancreatite aguda

É surpreendente como o filme consegue se sobrepor à estrutura do documentário clássico, com os tradicionais depoimentos e compilação de imagens sobre a carreira de Raul Seixas, e criar um painel sobre uma época, uma vida, uma filosofia de vida.

Raul – O Início, o Fim e o Meio, embora tenha mais de duas horas de projeção, o que normalmente não acontece em produções dessa natureza, não é cansativo.

Por vezes divertido, preciso e necessário, nas diversas entrevistas que exibe, o filme de Walter Carvalho encontra o seu caminho ao confrontar a personalidade do artista, o comportamente dele, com a arte que produziu.

Estamos na época de uma turma que colheu os louros dos beatniks. A Salvador provinciana não conseguiu erguer muros contra os ventos da contracultura que se avizinhava.

Raul Seixas, como primus inter pares desta nova geração louca, produziria obras-primas como Ouro de Tolo, Maluco Beleza e Metamorfose Ambulante.

Eram músicas que a classe média, assombrada com aqueles anos do amor livre dos hippies, das greves, do comunismo, do chumbo da ditadura, absorveu com tranquilidade.

Porque Raul falava a corações revoltados que não deixavam de ser também a gente simples, comum, que conseguia “comprar um Corcel 73″.

Depoimentos de nomes como Plínio Seixas, irmão de Raul, Waldir Serrão, amigo desde cedo, Caetano Veloso, Edy Star, Pedro Bial, de parceiros, das filhas e ex-mulheres ecoam nos quatro cantos da sala de exibição.

O mais importante deles é o do escritor Paulo Coelho, com quem Raul compôs músicas como Gita e Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás e formulou os conceitos (claro, nada rígidos) da Sociedade Alternativa fundamentada nos princípios do ocultista Aleister Crowley.

Não se trata de uma mera catalogação de ideias que se vê na tela. Há o confronto, algo inconcebível de esquecimento sobretudo quando se aborda a figura bombástica de Raul Seixas.

Uma providencial mosca atrapalha os trabalhos em meio ao depoimento de Paulo Coelho. Não chega a ser ‘uma mosca na sopa’, mas dá o tom de um discurso documental questionador (inclusive quanto à parceria e à controvertida relação do próprio Coelho com o artista baiano).

No filme de Walter Carvalho encontramos desde o Raul da meninice, fã de Elvis Presley na Salvador que mal sabia do rock, ao Raul que morre aos 44 anos, em agosto de 1989, em consequência de pancreatite aguda.

Não encontramos tanto o cantor e compositor dos ‘malucos’ que infestam o Jardim da Saudade de beleza e poesia, mas temos ali o inquieto Raul Seixas, inconformado, vencido, confrontado com a vida em Canto para Minha Morte:

-Tem uma revista que eu guardo há muitos anos/ E que nunca mais eu vou abrir.

Raul – O Início, o Fim e o Meio é o o retrato de um artista eternamente jovem. Em seu túmulo.