Puerilidade e humanismo marcam Tintim e Cavalo de Guerra, de Steven Spileberg

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Cavalo de Guerra no Oscar: filme, trilha sonora, edição de som, mixagem, direção de arte e fotografia

Não há razão para tanto rancor contra o Steven Spielberg de Cavalo de Guerra e As Aventuras de Tintim. No início, o cineasta norte-americano já dizia a que veio, com Encurralado, um road movie realizado para a TV que ganhou enxertos, foi exibido com sucesso nos cinemas e se tornou um dos filmes emblemáticos do gênero. Não negaria veia espetacular, depois, com Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Os Caçadores da Arca Perdida.

Ao lançar Os Caçadores, há mais de três décadas, Spielberg disse que queria em um único filme voltar à sensação que tinha ao assistir, quando criança, nos cinemas, aos inúmeros seriados que deixavam o público retornar para casa em suspense para somente depois saber o desfecho do filme.

Como o herói conseguiria se salvar da queda de um precipício, do ataque de aranhas gigantes ou de ser esmagado por duas paredes que se fecham em um cláustro comandado mecanicamente por um cientista maluco. Um pouco parecido com a experência de George Lucas, alguns anos antes, ao deflagrar a saga Guerra nas Estrelas e declarar seu amor por Flash Gordon.

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Tintim ganhou o Globo de Ouro de melhor animação, mas foi esnobado pelo Oscar

Pois bem, leitor, pode me matar, mas nunca fui fã ardoroso de Guerra nas Estrelas e suas continuações. Para mim, o mais divertido dos episódios da série é o que, acredito, menos empolga, ou empolgou na época, público e crítica: O Retorno de Jedi.

Quanto às aventuras do Indiana Jones de Spielberg, continuo achando espetacular não apenas Os Caçadorers, sobretudo, mas Indiana Jones e o Templo da Perdição. A partir daí abandonei a série, mas vejo em Tintim e Cavalo de Guerra tentativas bem posicionadas no sentido de resgatar aquele sentido de suspense único, sequência após sequência, retomado em Os Caçadores da Arca Perdida.

Não que outros filmes de Spielberg mais próximos do público infantil, como sua obra-prima, ET, e a série Jurassic Park abandonassem essa inclinação. Mas em Cavalo de Guerra e Tintim a profusão de cenas e situações que nos conduzem a esse universo do espetáculo, do grande espetáculo, está lá resguardada.

Nada contra a utilização da banda sonora em Cavalo de Guerra para criar emoção e nos derrubar pela raiz. Pelo menos desde Iwo Jima, de Clint Eastwood, sabemos que Steven Spielberg seria capaz de transformar em espetáculo até o mais sufocante drama de Ingmar Bergmam, e seu universo particular, se ali conseguisse colocar o dedo de produtor.

Acho que não é preciso mais falar detalhadamente sobre a história dos dois filmes, As Aventuras de Tintim e Cavalo de Guerra:

Tintim coloca o personagem do belga Hergé como que em descida livre de uma montanha russa percorrendo situações que incluem a descoberta do segredo em torno de uma réplica de um navio naufragado e de um tesouro perdido, com personagens no mínimo antológicos: o cãozinho Milu, o capitão Haddock, uma ave de rapina a serviço do banditismo e os incrivelmente atrapalhados agentes da interpol Dupond e Dupont.

Cavalo de Guerra é conduzido por um fio narrativo que se alonga durante a Primeira Guerra, seguindo a trilha de um cavalo que passa por diversas mãos – de um capitão britânico cuidadoso a dois jovens recrutas alemães dissidentres -, cruzandos fronts do grande conflito mundial.

Há pelo menos uma sequência muito boa, quando um soldado ergue a bandeira branca e vai soltar o cavalo da teia de arame farpado e logo é seguido por outro soldado inimigo. Lembrei de A Grande Ilusão, de Jean Renoir, quando um militar impede outro de atirar contra um fugitivo porque ele já havia ultrapassado a fronteira.

Cavalo de Guerra e Tintim podem não ficar na história, mas recuperam, sem receios, com puerilidade e humanismo, inúmeras momentos do cinema que nos acostumamos a ver quando crianças, sejam eles de filmes de cavalaria, de piratas, aventuras infantis ou westerns bucólicos com seus grandes planos de colinas e montanhas fotografadas à contraluz.