Para entender O Homem Que Não Dormia e sua aparente desarticulação narrativa

O Homem que Não Dormia - pontocedecinema.blog.br

Belo momento: dois tempos (presente e passado) e espaços (real e imaginário) se fundem em rito de libertação

Assisti ao filme de Edgard Navarro pela segunda vez e confesso que continuo gostando. Não vejo como fundamental a explicação de tudo o que existe ali, e isso inclui as sequências escatológicas e pretensamente bizarras do filme.

Do mesmo modo, em Luis Buñuel, o mestre do surrealismo no cinema, o fascínio decorre da capacidade que cada um tem de extrair sigificado de situações como a presença recorrente de um homem carregando um saco de aniagem nas costas, em Esse Obscuro Objeto do Desejo, último filme do cineasta espanhol.

Já cheguei a comentar sobre a desarticulação na narrativa de O Homem Que Não Dormia. E volto ao ponto em que todo o desarrazoado tem um norte. Em um primeiro momento não vemos claramente isso, mas o filme é desenvolvido em três planos:

1. O da realidade cabal, estrita, que tem a ver com o sonho e os sonhadores;

2. O do comentário sobre essa realidade, feito pelos homens do boteco e da barbearia da esquina, e pelo contador de histórias que nos envolve em um mundo de sacis-pererês e mulas sem cabeça, erguendo a ponte para um terceiro plano;

3. O do não-lugar fantástico, ancestral, dominado pelo poderoso barão cujo espírito paira entre aqueles sonhadores danados.

Para que os sonhadores se libertem, eles precisam de uma prova de fogo. E ela se dará em um ritual de resgate simbólico do tesouro enterrado pelo barão.

Navarro faz um filme inteligente e cuidadosamente urdido com a manipulação daqueles três planos – da ideia semeada desde o início, com os personagens flanando em espaços de danação, ao processo de libertação que se completa com a ascensão do padre sem vocação.

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