Panorâmica no CineFuturo 3: com jeito de filme B, Alice Diz: é uma das boas surpresas do festival

Alice Diz: pontocedecinema.blog.br

Daniel Confortin interpreta o rapaz que se apaixona em bate-papo na internet e descobre que o amor é impossível

Elemento imprescindível em festival que se preza, a surpresa está em Alice Diz:, de Beto Rôa. À primeira vista o filme pareçe uma bomba, ao falar de um rapaz que se apaixona pela Alice do título em bate-papo na internet.

Ao articular elementos de filmes de gênero, trabalhando com o fantástico, a ficção científica e o drama romântico, o longa gaúcho entra em uma bifurcação perigosa.

Exibe imperfeições e parece não suficientemente ajustado, como qualquer filme B, o que é sublinhado pela debilidade de algumas interpretações entre os atores coadjuvantes.

Mas esqueçam isso, inclusive certo esquematismo na condução das relações no trabalho, ambiente que concorre com o estágio de solidão domestica do rapaz.

Trailer de Alice Diz:

Prestem atenção nos diálogos. Alguns minutos, e o filme mostra que tem muito mais a dizer sobre um tempo de relações amorosas forjadas no computador.

Alice parece hábil e manipuladora, enquanto Daniel é um jovem sentimental que se entrega de fato aos caprichos da interlocutora, até que descobre que foi ludibriado e fica triste.

Em um primeiro momento pensei que pudesse haver alguma influência de Wim Wenders, vendo a citação de Estrela Solitária (2005) no início, por causa de Alice nas Cidades (1974), um dos primeiros longas do cineasta alemão. Não é o caso, acredito.

O vazio associado à dor da perda de algo que nem ao menos conquistara e ao sentimento de ter sido enganado leva o rapaz a uma investigação sobre a verdade de Alice ao mesmo tempo que a uma confusão em torno da realidade.

Alice diz: é um filme sobre sonhos.

Isso é sinalizado, desde o início, pelo relógio-despertador sobre rodas que cai da cômoda repetidas vezes, como um leitmotiv a alavancar a narrativa, e corre desgovernado pelo apartamento, uma vez disparado o alarme, até ser desarmado pelo rapaz.

A maneira como Beto Rôa desenvolve a narrativa, com o ator Daniel Confortin introjectando a tristeza, misturando as realidades, é comovente. O filme fecha-se melancolicamente com um gesto simbólico extremado, em rito que aponta para a falência dessas novas relações.

Não deixa de ser um lugar-comum, também, mas, neste caso, bem-trabalhado. Melhor do que muitas tentativas fajutas de criatividade, que só fazem chatear, vistas no CineFuturo.

Lembrei do funeral no mar de Os Aventureiros (1967), bela sequência do filme de Robert Enrico, quando Alain Delon e Lino Ventura se despedem da companheira morta ao som de François de Roubaix.