Panorâmica no CineFuturo 2: As Quatro Voltas, Irmãs Jamais, Júlio Bressane e Minha Terra, África

 As Quatro Voltas - pontocedecinema.blog.br

As Quatro Voltas, de Michelangelo Frammartino: o cotidiano de uma vila, pautado pela ausência de diálogos concretos

Se o filme está incomodando, não o abandone. Há ali algo de extremamente forte. É isso o que nos diz As Quatro Voltas, do italiano Michelangelo Frammartino, que se concentra no cotidiano de uma vila italiana, pautado pela ausência de diálogos concretos e dominado pelos ruídos. Não há esforço para a comunicação. O filme é o que se vê, o que se mostra, e o tempo passa sem abalos, determinado pela rotina do pastoreio, do corte de madeira, do transporte da carga, da transformação em carvão, do ordenhamento, da ida à representação da Paixão de Cristo, do cortejo funerário, do caixão encerrado no túmulo, por dentro, na zona escura que se contrapõe ao bezerro que nasce em queda livre do ventre da cabra. Um belo filme dominado inclusive pelo humor que o inesperado provoca.

Irmãs Jamais - pontocedecinema.blog.br

Alba Rohrwacher, Donatella Finocchiaro e Elena Bellocchio em Irmãs Jamais, do italiano Marco Belloccio

De 1999 a 2008, o italiano Marco Bellocchio desenvolveu um projeto envolvendo sua família que resultou em Irmãs Jamais. Ele retoma aspectos de seu longa de estreia, De Punhos Cerrados, de 1965, inclusive com imagens em p&b remissivas ao filme, tendo como protagonistas sua filha mais nova, Elena, acompanhada dos 5 aos 13 anos de idade, seu filho mais velho, Pier Giorgio Bellocchio, que interpreta o tio da menina, e suas irmãs, Letizia e Maria Luisa, as tias velhas que estão preocupadas em ampliar o jazigo da família na região de Bobbio, Itália. Bellochio associa ao elenco as atrizes Donatella Finocchiaro e Alba Rohrwacher como a mãe da menina, uma atriz em busca de afirmação, que acaba de ganhar o papel principal em uma peça de Shakespeare, e uma professora indecisa em relação à aprovação de um aluno. E tece uma teia de relações ao manipular com maestria as incertezas, os ressentimentos, o vazio existencial, os labirintos sentimentais de uma família.

Batuque dos Astros - pontocedecinema.blog.br

Batuque dos Astros: tudo parece se mover nesses 75 minutos de provocação artística, cinematográfica, literária

Júlio Bressane mais uma vez envolvido em um projeto de filme-ensaio, nos dá um belo exemplar ao montar guarda em Lisboa para espreitar a vida, o sentimento e a presença do poeta português Fernando Pessoa. Ele vai logo dizendo que o maior autor da língua portuguesa é Padre Antônio Vieira. Ok. Bressane não é fácil. Mas não há como mudá-lo. É um cineasta para quem o filme é muito mais que um campo destinado a um diálogo tranquilo com o público. Tem que haver embates. Batuque dos Astros – que particulariza duas linguagens, do Brasil e de Portugal, com a utilização de imagens antológicas remanescentes do baú de memórias do cinema brasileiro – em nada nos dá conta da ausência de Pessoa. Ao contrário, mesas, cadeiras, caneta, bloco de anotações, livros, óculos, chapéu – mesmo o que permanece estático parece se mover nesses 75 minutos de provocação artística, cinematográfica, literária.

Minha Terra África - pontocedecinema.blog.br

Huppert interpreta Maria no filme de Claire Denis, uma francesa que não quer abandonar sua plantação de café

Em Minha Terra, África, a atriz Claire Denis, cada vez mais se consolidando como cineasta, exorciza os fantasmas da colonização francesa no continente africano, por meio de um núcleo familiar, sublinhando comportamentos arquetípicos dentro desse meio. Isabelle Huppert, no papel de Maria, é uma mulher que se recusa a abandonar sua plantação de café em meio a um regime de convulsões em um país tomado por rebeldes. Tensão que beira o insuportável em filme que a cada momento investe na possibilidade de ataque, terror e morte. Criada na África, Denis não gagueja. Ela sabe sobre o o que está falando. E isso é fundamental.