Panorâmica no Cine Futuro 1: de Cuíca de Santo Amaro a Rogério Sganzerla e o Vale do Capão

Cuíca de Santo Amaro - pontocedecinema.blog.br

Ilustração da abertura do filme de Josias Pires e Joel Menezes: Cuíca de Santo Amaro para bem e para o mal

Daqui a dois dias chega ao fim o Festival CineFuturo – 8º Seminário Internacional de Cinema. Já é tempo de começar a fazer um pequeno balanço. E me atenho exclusivamente à Mostra Internacional, que inclui longas brasileiros – e baianos, o específico que muito nos interessa. De Cuíca de Santo Amaro, de Josias Pires e Joel Almeida, ensaio documental sobre o poeta e cronista popular mais famoso da Bahia, a Irmãs Jamais, belo filme do italiano Marco Bellocchio, a programação do CineFuturo, como em qualquer festival, nos encanta, nos chateia, nos surpreende.

Cuíca de Santo Amaro é um mergulho na vida de José Gomes (1907-1964), o cordelista, trovador, cronista que tirava a palavra do ato, no momento, para fazer uma radiografia da velha Bahia das décadas de 40, 50 e 60 do século passado. O filme vai fundo em sua vida com o pouco de registro em imagens em movimento que restou do poeta: apenas a sequência de abertura e o final do filme A Grande Feira (1961), de Roberto Pires. Joel Almeida e Josias Pires trabalham a Salvador da época, inserindo o cinebiografado no geografia do lugar por meio de imagens de filmes, recortes, ilustrações, animações e entrevistas. Não poupam o próprio Cuíca, mostrado em sua irreverencia – para o bem e para o mal.

Prá Lá do Mundo - pontocedecinema.blog.br

Prá Lá do Mundo: encanto e esgotamento provocado pela presença de turistas no Vale do Capão

O documentário Prá Lá do Mundo, de Roberto Studart, agradou ao público em sua incursão pelo Vale do Capão, na Chapada Diamantina, para revelar o encanto e o natural esgotamento provocado pela presença de turistas ensandecidos no lugar transformado em lenda a partir dos anos 1980. Com produção caprichada e belas imagens, há um momento em que um dos entrevistados diz que queria que Werner Herzog – o diretor alemão que transformou sua expedição à inacessível caverna Chauvet, na França, no belo documentário em 3D, A Caverna dos Sonhos Perdidos – filmasse o Capão. Mas falta a Prá Lá do Mundo, que se apoia em boa parte nas entrevistas, um olhar cirúrgico – e não apenas epidérmico -, de entrega, de mergulho, de descida obstinada à mata, ao Vale do Capão.

Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha - pontocedecinema.blog.br

Helena Ignez decalca O Bandido da Luz Vermelha em reverência declarada a seu espírito de liberdade

A criatatividade e a veia revolucionária de Rogério Sganzerla, em seus primeiros momentos no cinema, ao compor painel sobre a angústia de uma época, em O Bandido da Luz Vermelha (1968), estão decalcadas em Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez. Mas não pensem que se trata de um filme espúrio: na realidade, uma reverência mais que declarada, com texto do próprio Sganzerla, que se encharca do espírito de liberdade do criador. Há, sim, a presença de Ney Matogrosso meio perdido quando se trata de fazer pose de bandido, mas o cantor de Homem Com H se encontra quando a ordem é sair das trevas e transformar-se em luz.