Pacto Sinistro, contraponto edificante à tragédia de Match Point

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Clímax de Pacto Sinistro: Guy Haines (Farley Granger) e Bruno Antony (Robert Walker) lutam em carrossel desgovernado


Quando concluí o comentário e falei sobre o ‘círculo de agonia e arrependimento’ ao qual Chris Wilcott, o personagem de Jonathan Rhys Meyers, em Match Point, estava destinado, a referência era mesmo à bola de tênis e à aliança da velha que ele matou, Sra. Eastby (Margaret Tyzack), que acabou por livrá-lo da cadeia. Impossível não ver isso como citação à obra de Alfred Htchcock, mais especificamente a Pacto Sinistro, que o mestre do suspense lançou em 1951. Sobretudo se o filme é dirigido por Woody Allen, um dos nomes chaves da pós-modernidade no cinema.

Allen e seus pares remeteram-se a um passado de glória (outros já o haviam feito, como Jean-Luc Godard, que inaugurou sua aura criativa com Acossado, 1960), mas de forma tão incisiva – lembremo-nos da febre de nostalgia que dominou o mundo na segunda metade dos anos 1970 – na passagem dos 60 para os 70, imbuídos da necessidade de repensar. E o momento era aquele, em que já se podiam vislumbrar as facilidades tecnológicas que se avizinhavam, quais sejam, a proliferação dos vídeos domésticos, a partir dos 80, e a verdadeira explosão de imagens posterior profetizada por Michelangelo Antonioni com as cenas das sucessivas ampliações fotográficas feitas pelo personagem de David Hammings que revelam um crime que provavelmente não aconteceu, em Blow Up, na ‘swinging London’ de 1966.

DE O RINGUE a PSICOSE – Podemos listar alguns momentos de Hitchcock, desde o início da carreira do mestre do suspense, no cinema mudo britânico, referenciais para Allen em Match Point. Em O Ringue (1926), a história de um triângulo amoroso envolvendo uma mulher e dois pugilistas – desde o título em inglês, The Ring, que remete também a anel – o sentido é recorrente e determiado em referência à traição. Dando um salto, os impressionantes créditos criados por Saul Bass para a abertura de Vertigo – Um Corpo que Cai, (1958) com a música de Bernard Herrmann, olhos, círculos, espirais e mandalas se sobrepondo em bailado premonitório da desordem interior à qual seriam submetidos os personagens de Kim Novak e James Stewart.

Dito isso, não há como esquecer das imagens que vêm logo a seguir ao crime do banheiro em Psicose, o filme que Alfred Hitchcock fez no início dos anos 60, em preto e branco, ironicamente, para não chocar tanto o espectadores: o chuveiro redondo do qual jorram rios, um travelling por onde escorre a água misturada com o sangue até o ralo do boxe, que toma a tela praticamente toda. Um corte e o olho, visto em detalhe, a câmera se afastando em movimento circular para revelar o rosto duro de Marion Crane (Janet Leigh), a morta.

Curioso também é que Match Point talvez seja o Woody Allen mais sério, dominado por uma atmosfera trágica sublinhada pela tom operístico que perpassa o filme de ponta a ponta (a sequência dos assassinatos é marcante), mas o filme em que ele vai buscar sua principal referência, Pacto Sinistro, é um Alfred Hitchcock bem-humorado. Estamos aqui nos referindo a Farley Granger no papel d tenista profissional Guy Haines, no momento em que ele busca, digamos assim, o ‘match point’ em partida decisiva e foge dos policiais que o escoltam para tentar evitar que Bruno Antony (Robert Walker) plante a prova de um crime que não cometeu, mas o colocaria definitivamente na cadeia.

CRIME PERFEITO – É aquela velha história do crime perfeito e do homem acusado injustamente, sobre a qual Hitchcock se debruçou incansavelmente e que encontra suas principais variantes, didaticamente falando, em Festim Diabólico e O Homem Errado. Bruno conhece Guy numa viagem de trem e resolve propor que cada um deles mate o desafeto do outro. O que para Guy é uma brincadeira, torna-se realidade na mente doentia de Bruno, que esgana a mulher chantagista com quem o tenista briga pelo divórcio. E não apenas espera, mas quer obrigar o outro a matar seu pai, sob pena de levá-lo à cadeia.

Hitch mostra que a ‘sorte’ da qual Chris fala nos primeiros momentos de Match Point não é algo que se deva esperar de tudo na vida. Ao contrário, algo a se conquistar. Guy realmente vence o jogo com sacrifício e o ‘círculo de agonia e arrependimento’ que toma conta do personagem de Woody Allen, aqui, se transforma em movimento edificante, depois de um clímax primoroso, em sequência de luta no carrossel que gira desgovernado, com o filme fechando o ciclo praticamente no mesmo ponto onde começou; em vez do pesar, no entando, o humor escancarado do velho Hitchcock: refeito do passado, ao lado de sua nova mulher (Anne Morton, no papel de Ruth Roman), o tenista sai em retirada, como a constatar que seguro morreu de velho, diante de um novo e sugestivo encontro no trem.