A Velha dos Fundos, de Pablo Meza, trata a solidão como um mal-estar permanente

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Marcelo (Martin Piroyansky) e Rosa (Adriana Aizemberg) em A Velha dos Fundos: desencanto e isolamento

O filme de Pablo Meza une dois extremos em espaços exíguos, ainda que boa parte da movimentação seja em locações externas:

Uma senhora com mais de 80 anos de idade, que mora sozinha em um apartamento em Buenos Aires, e um rapaz nos seus 20 e poucos anos, que estuda medicina e está prestes a retornar para casa, no interior, porque não encontra emprego certo e seus pais não têm mais como mantê-lo na cidade.

Um elevador antigo do prédio onde moram coloca os dois em sintonia: parados entre um andar e outro, a solução vem da velha, Rosa, interpretada por Adriana Aizemberg, que oferece casa e comida ao rapaz, Marcelo (Martin Piroyansky), em troca de sua companhia. Ela quer apenas alguém para conversar.

Nada está certo em A Velha dos Fundos, tudo precisa de ajustes. Mas não é o filme que vai apontar a solução. Isso fica explícito quando o enfermeiro tira o gesso do braço da mulher, livrando-a de um fardo, e ela responde que parece que falta algo, quando ele pergunta se está tudo bem.

Aliás, o fardo pesa sobre todos. Do brasileiro que trabalha em uma livraria e gostaria de estar longe dali, embora reconheça que tudo o que ama e lhe interessa esteja realmente ali, à garota que trabalha como secretária da irmã advogada, flerta com Marcelo, mas recusa seu beijo e suas flores, talvez por descobrir que ele mora com uma velha – e ela odeia velha, a “impunidade” das velhas.

Bem que poderíamos estar em uma das páginas de Clarice Lispector, tal a imersão que o filme de Pablo José Meza nos propõe. Mas o que temos aqui são imagens em uma pequena parábola sobre o isolamento.

A ambientação dos apartamentos e corredores escuros do prédio, que não se contrapõe à da rua, também sombria, delimitada dentro do quadro, que parece pequeno para o que mostra, nos diz isso.

É um incômodo, quase não se vê nada dentro dos espaços, e o o elevador barulhento subindo e descendo, em recidivas, é uma espécie de leitmotiv a reafirmar essa doença permanente, esse mal-estar de todos, que volta.

O filme poderia ser um drama romântico ou uma comédia unindo o estudante e a velha dos fundos. As flores rejeitadas pela garota que dispensa o assédio de Marcelo nos deram essa ideia; mas, pelo contrário, A Velha dos Fundos é um pequeno ensaio desencantado sobre a solidão.

Alguém já falou que a solidão é perigosa. Pablo Meza detecta isso e nos lança sinais de fumaça em um filme rico e, à sua maneira, profundamente humano.