Os Olhos Sem Rosto, de Franju, é o molde de A Pele Que Habito

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Edith Scob é Christiane, o anjo libertador de Os Olhos Sem Rosto, filme do francês Georges Franju

Pedro Almodóvar pesca a cada filme um catálogo de referências e não nega a origem. A Pele Que Habito tem também como molde Os Olhos Sem Rosto, um filme em que fala mais alto o desespero de um médico interpretado por Pierre Brasseur ao tentar a todo o custo, investido da fúria contra jovens ingênuas sequestradas por sua assistente (Alida Valli), recuperar, em transplantes, a face destroçada da filha (Edith Scob) por um acidente de veículo.

Obra máxima do horror no cinema, em Os Olhos Sem Rosto - realizado na virada dos anos 50 para os 60 do século passado, nas palavras de Claude Beylie, que o relaciona entre As Obras-primas do Cinema -, Georges Franju “parece, no começo, fazer um pastiche de algum filme expressionista alemão, lançando-nos de repente no mais glacial realismo”.

Isso talvez tenha a ver com a primeira impressão que tive de A Pele Que Habito e o resgate dos profundos sentimentos da personagem de Elena Anaya, mantida em cativeiro, que os impõe como verdade, no final do filme, devolvendo ao médico interpretado por Antonio Banderas e à enfermeira vivida por Marisa Paredes a vingança da qual fora vítima durante anos.

Pois esta também parece ser a motivação da filha do médico de Os Olhos Sem Rosto, que, afinal, de pássaro enclausurado em um círculo de horror, imbuída do espírito de libertação, surge em uma sequência de puro encanto e poesia que tem mesmo como função, nessa fábula perversa de abismo e sombras, o resgate daquela ingenuidade perdida, conforme prenuncia a singeleza dos acordes da música de Maurice Jarre.

Os Olhos Sem Rosto

1959/1960
De Georges Franju
Onde encontrar: Vintage Vídeos