Os 10 melhores filmes internacionais de 2012

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Robert Pettinson no papel de Erick Michael Parker em Cosmópolis, de David Cronenberg, o melhor filme do ano

Compartilho aqui a minha lista de melhores do ano, escolhidos os títulos entre os lançados comercialmente em Salvador em 2012. Vale muito pelo prazer da discussão, pela exposição de ideias e pelo estímulo ao espírito crítico.

1. Cosmópolis, de David Cronenberg
São os mistérios do organismo, um terreno cronenberguiano por excelência. A tal da próstata assimétrica – assim como o útero trifurcado da atriz que vira a cabeça dos irmãos ginecologistas de Dead Ringers (Gêmeos – Mórbida Semelhança, 1988) – é esse estado de crise que o filme detecta no tecido humano – de Erick Michael Parker, de New York e do mundo. Obra-prima.

2. As Aventuras de Pi, de Ang Lee
O desconforto que sobrevém ao garoto em sua solidão, ao lidar com o tigre de Bengala, na monumentalidade do oceano, e ao ter que refazer sua história, de volta à terra firme, é o mesmo do velho taiwanês inadaptado à vida na América, em A Arte de Viver, do rapaz gay que monta uma farsa para satisfazer o pai, em Banquete de Casamento, e do cowboy de O Segredo de Brokeback Mountain, corroído pela constatação de que foi subtraído do âmbito social, sobretudo familiar, em seu amor pelo companheiro morto. Ang Lee reinventa o clássico hollywoodiano.

3. A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese
Aventura infantojuvenil lúdica, sentimental e histórica de Scorsese, que a um só tempo recorre aos mais avançados recursos tecnológicos, com uso especial e inventivo do 3D, e recua no tempo em homenagem ao cinema do início do século 20, que nada mais é que a base de tudo o que se vê, se faz e se esquece hoje.

4. Fausto, de Aleksandr Sokurov
O diretor russo trabalha com o radicaliasmo, conceitual e estético, para nos dar uma obra de invenção e reflexão sobre os estatutos do poder, fechando a tetralogia que enfoca ainda Hitler (Moloch, 1999), Lenin (Taurus, 2000) e Hirohito (O Sol, 2004). A revisita ao mito aumenta o interesse por essa figura lendária que encontrou sua mais famosa e definitiva representação em Goethe, na obra implacável do romantismo alemão até hoje tomada como referência quando se trata do tema.

5. L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, de Betrand Bonello
O filme transcende a etiqueta pornô soft para nos levar por um caminho de reflexão sobre o gozo, ao centrar-se numa espécie de último bordel francês e em suas damas que dali extraem desencantos e tragédias. Bonello situa a história entre dois mundos, o do século XIX e o do século XX, entre o crepúsculo e a aurora. E é entre dois mundos que o filme vai se equilibrar, percorrendo um itinerário de estranhezas que confronta presente e passado, clássico, moderno e contemporâneo.

6. Holy Motors, de Leos Carax
Se o automóvel de David Cronenberg (Cosmópolis) representa um organismo vivo, mas doente terminal, aqui, em Leos Carax, é transfiguração e movimento. Oscar, um senhor de respeito, está pronto para viver várias vidas, e a Limousine será o lugar de transformação, o camarim desse teatro sem pano. O diálogo entre os veículos recolhidos à grande garagem noturna nos leva a pensar o que seria de Crepúsculo dos Deuses (1950) se Billy Wilder efetivasse a intenção de iniciar o filme com o personagem de William Holden, morto, contando sua histórias para outros cadáveres no necrotério.

7. Para Roma Com Amor, de Woody Allen
Gosto sobretudo de um momento específico, síntese do filme, e do cinema, de Allen: a garota do interior, depois de várias tentativas de encontrar o hotel onde está hospedada com o marido, dá-se conta de que realmente se perdeu. A câmera, em um giro de 360 graus, compõe a metáfora do perder-se em Roma, ou na Itália, para depois reencontrar-se, seja lá como for, que é a essência de filmes tão díspares quanto a A Princesa e o Plebeu, A Doce Vida e uma série de outros menos honrosos que apareceram como um um filão, nos anos 50 e 60.

8. Um Método Perigoso, de David Cronenberg
O último plano define bem o filme. 1913. A câmera se aproxima do rosto de Carl Jung, enquanto ele jaz fatigado em uma poltrona no jardim de sua casa, como se concentrasse a agonia do mundo. É uma espécie de premonição da guerra e do nazismo. Mas também um adeus, em definitivo, àquele rumoroso caso de amor que a partir de então, ele – que se tornaria o maior psicólogo do mundo, como define Cronenberg – só poderia viver dentro de uma sala escura de cinema. Para resguardar o ‘ordenamento humanitário da vida’.

9. Isto Não É Um Filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
Proibido de filmar, mas não de atuar, o cineasta iraniano Jafar Panahi convidou o amigo Mojtaba Mirtahmasb, também cineasta, para filmá-lo durante um dia em sua prisão domiciliar. O resultado é uma espécie de “não-filme”. O filme parte, portanto, de uma negação para ser, enfim, uma afirmação. Aquela é a grande frase, quando Panahi diz que está proibido de filmar, mas não está impedido de atuar. E como atua e desfolha-se em sua vida interior.

10. Sombras da Noite, de Tim Burton
Tudo é apenas pretexto para o cineasta destilar humor raro – com narrativa delicada, cadência, clareza e arte –, provocado pelo estranhamento de um ser que se vê acordado em um mundo mais estranho do que sua própria condição de criatura condenada a viver eternamente. Sombras da Noite desfila uma série de referências pop. Ri-se o tempo todo – de tudo e com todos.

Publicado originalmente em 27.12.2012