Opção por caricatura enfraquece drama racial em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor

Historias Cruzadas - pontocedecinema.blog.br

Octavia Spencer e Viola Davis concorrem a melhor atriz coadjuvante e melhor atriz, domingo, no Oscar

Tenho muita expectativa em torno do trabalho de Glenn Close em Albert Nobbs. Amigos que já viram o filme dizem que ela está excelente. Não daria o prêmio de melhor atriz, no Oscar, a Viola Davis. Histórias Cruzadas é um filme a que você assiste até o fim, com interesse. Mas o grande problema é a recusa de Tate Taylor, talvez por medo do ridículo, a se deixar levar pelo viés melodramático.

Um melô ali cairia muito bem. Mas Taylor prefere fazer uma caricatura, sobretudo das mulheres brancas, e levar a história para um lado, por assim dizer, mais humorístico. É até interessante aquela subtrama escatológica, envolvendo a personagem de Octavia Spencer, mas acho que assume grande proporção: acaba por eclipsar o drama da personagem de Viola Davis, muito digna, como o fio condutor de Histórias Cruzadas.

Histórias Cruzadas é meio postiço. É assim: o cinema norte-americano sempre querendo dar uma de bonzinho com os afrodescendentes em histórias que, por fim, soam anódinas. Lembro de Crash – No Limite, o filme meia-boca de Paul Haggis, de 2005, que ganhou o Oscar quando, na verdade, Spike Lee explodiu com Faça a Coisa Certa e Febre da Selva pelo menos 15 anos antes.

Não esqueço ainda de Adivinhe Quem Vem Para Jantar, bom filme de Stanley Kramer do final dos anos 1960, com Spencer Tracy e Sidney Poitier. Tracy fazia o pai da menina branca com quem Poitier ia casar. Mas tudo levado dentro de um limite insuportável do politicamente correto que fez o filme perder o vigor.

E a necessidade de reforçar, no final, o aval do personagem de Spencer Tracy ao romance de Poitier com Katharine Houghton, sob os olhos complacentes da mãe, interpretada por Katharine Hepburn, também me pareceu insuportável.

Em um ano explosivo, 1968, em que concorreram A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols, e Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, perdeu para outro drama sobre racismo, No Calor da Noite, com o próprio Poitier. Melhor.

Histórias Cruzadas é uma espécie de concessão da menininha branca Skeeter (Emma Stone), que escreve o livro, depois de convencer aquela turma de mulheres negras sofredoras da pequena Jackson, no estado norte-americano racista do Mississipi, a contar suas histórias.

O filme fica meio que no vazio das coisas superficiais, roçando apenas de leve o drama que foi a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, acirrada nos ano 1960. Mas vale a pena ver Histórias Cruzadas, sobretudo pelo elenco. É extenso, com intermináveis 137 minutos, mas tem trama e narrativa envolventes.