Salvador vê cópia nova de Violência e Paixão

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Helmut Berger e Burt Lancaster em Violência e Paixão, penúltimo filme de Luchino Visconti, realizado em 1974

Uma das obras-primas do cineasta italiano Luchino Visconti (1906-1976), Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in Un Interno, 1974) ganha duas exibições no 8º Panorama Internacional Coisa de Cinema em cópia restaurada, em 3mm: sábado, 27/10, às 15h30, e domingo (28), às 17h30. Leia matéria matéria publicada originalmente em 15/7/2011.

Circula no Brasil uma cópia em 35mm de Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in un Interno, ou, na versão em inglês, Conversation Piece). Trata-se de um dos melhores filmes de Luchino Visconti, cuja visão nos cinemas de Salvador faz-se imprescindível. Lançado no antigo Cine Bahia, da Rua Carlos Gomes, em 1975, Violência e Paixão é o penúltimo filme do mestre italiano, que já estava em uma cadeira de rodas quando o concluiu e realizaria, logo em seguida, O Inocente, adptação da obra de Gabriele D’Annunzio que nem mesmo viu completa, morrendo em 17 de março de 1976, antes de fazer 70 anos de idade e de ver finalizada a montagem por Ruggero Mastroianni, seguindo seu cânone.

Violência e Paixão, pelo significado da obra e questões por ela suscitadas, adquirie dimensão de canto do cisne de seu autor, ao contar a história de um professor e colecionador de obras de arte norte-americano interpretado por Burt Lancaster que, nos últimos dias de vida, prefere o recolhimento ao seu apartamento em Roma, cercado de livros, quadros e música erudita, em vez do convívio social, quando tem a intimidade invadida pelo ‘gruppo di famiglia’ do título original, comandado pela marquesa Bianca Brumonti (Silvana Mangano), que chega com a proposta de ocupar o andar de cima do imóvel.

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Silvana Mangano no papel da marquesa Bianca Brumonti

GRANDEZA E DECADÊNCIA – Acompanhada do amante, Kanrad (Helmut Berger), da filha, Lietta (Claudia Marsani), e do namorado dela, Stefano (Stefano Patrizi), Bianca instaura o caos na vida do professor, que é reflexo de um caos exterior vindo de uma itália que vivia em momento de convulsão política e social no decurso da década de 1970. A vulgaridade, o gesto insano e a violência (aqui, em tamanho medido, afirme-se) imperam em um ambiente que se pensou antes impoluto, resistente à trivialidade, num processo contínuo de desagregação que é, enfim, o mote do cinema do marxista-aristocrata Luchino Visconti.

Nesse sentido, Visconti já havia enfocando o dilema e a tragédia que se incorporam no seio de uma família pobre que migra do sul para o norte rico da Itália em Rocco e Seus Irmãos. Grandeza e ruína se situam num patamar nunca antes imaginado por qualquer outro autor cinematográfico, além do Visconti que captou, em O Leopardo, como que em seu momento de formação, a decadência da aristocracia italiana ao ceder lugar para uma burguesia ascendente (“as coisas precisam mudar para continuarem as mesmas”, no dizer de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor do livro em que o filme é baseado) no período de unificação italiana pelas tropas de Garibaldi, no século XIX.

E mais, em Os Deuses Malditos, a tragédia que toma conta dos Von Essenbeck, uma rica família alemã dona de um império de usinas de aço, que tem o seu esfacelamento iniciado a partir do momento em que seu patriarca anuncia o afastamento e delega o comando, instaurando litígio que reflete justamente o período vivido pela Alemanha, no entreguerras, com a ascensão do nazismo. Ou mesmo a dissolução de um poder, contada com ímpetos grandiloqüentes nas quatro horas de projeção de Ludwig, a partir da história do seu personagem principal, Ludwig II, o chamado rei louco da Baviera, coroado aos 20 anos de idade e morto aos 40.

Assisti à Violência e Paixão no Cine Bahia, na época, um dos melhores da cidade em acomodação e nível de programação. Hoje transformado em igreja evangélica, foi lá que no mesmo período estrearam filmes como Amarcord, de Federico Fellini, Um Estranho no Ninho, de Milos Forman, e O Passageiro – Profissão Repórter, de Michelangelo Antonioni. E, antes, o próprio Ludwig de Visconti, que teve seu esplendor neutralizado pelos produtores internacionais ao reduzirem as cópias que circularam pelo mundo a míseros 180 minutos de projeção.

Falo isso de memória, porque me lembro do tempo em que ficávamos a ver navios, sem vídeo, sem DVD, esperando que grandes filmes surgissem para revê-los no cinema. Violência e Paixão, fotografado esplendidamente por Pasqualino De Santis, em cinemascope, aguarda um porto em Salvador. A cópia está aí, novinha em folha. Com a palavra os exibidores.

Violência e Paixão (Gruppo di Famiglia in un Interno)
França/ Itália, 1974 – 121 min
De: Luchino Visconti
Onde encontrar: Vintage Videos