O Vencedor busca referência no universo de Os Bons Companheiros

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Micky (Mark Wahlberg) e Dicky (Christian Bale), em O Vencedor, que deu o Oscar de Coadjuvantes a Bale e Melissa Leo


Há uma sequência em Os Bons Companheiros que considero definitiva para sinalizar a importância do filme entre tantos de Martin Scorsese e demais sobre a máfia e a formação de grupos de delinquentes. Digo até mesmo que GoodFellas é a obra-prima de Scorsese, em meio a títulos do porte de Taxi Driver e Touro Indomável. E não me furto ao prazer de compará-lo a um filme recente que vi como o melhor entre todos os que concorreram ao Oscar este ano, O Vencedor (The Fighter), de David O. Russell, que acaba de ser lançado em DVD.

Lorraine Bracco interpreta a namorada de Ray Liotta (Henry Hill), Karen, em Os Bons Companheiros (1990). Em determinado momento ela tem um problema com um vizinho (parece que recebe uma cantada, não me lembro bem). Ao saber disso, Henry praticamente joga a mulher no carro, sai em disparada até a casa e soca o cara até não mais poder.

SENHORA HILL – Um plano fixo mostra o rosto de Bracco. E ela pensa, porque é dela uma parte da narrativa em off do filme: ‘foi naquele momento que percebi que ele era o homem com quem eu queria casar’. Corte para a cerimônia e a festa de casamento. Karen se transforma na senhora Hill, que estará ao lado do marido em todas as ocasiões, de suas ligações com o tráfico, à presença constante na prisão, participando de todo o processo que o leva ao tribunal.

Realizado em 1990, Martin Scorsese tratou ali, em Os Bons Companheiros, sobretudo, de questões relacionadas à gênese da delinquencia até as altas esferas do mal. Os personagens de Liotta, Robert De Niro e Joe Pesci são os garotos que começam a aplicar os pequenos golpes – os amigos que passam a traficantes e encontram um lugar no mundo do crime. Mas esta lógica vai ter que mudar neste jogo que envolve negócios espúrios, grana e violência, muita violência.

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Ray Liotta e Lorraine Bracco em Os Bons Companheiros

Em determinado momento, há uma fratura nas relações de bom companheirismo que até então moviam todos. Eles como que traem um pacto e caem nas garras da polícia, submetidos a uma radiografia do crime. E tudo se mostra um campo aberto para um outro pacto, o de Henry Hill com Karen, sacramentado em laço de casamento, que havia sido definido naquele momento em que a mulher vibra com o temperamento intempestivo e violento do futuro marido. É ela quem o segue incondicionalmente. É ela, portanto, a companheira.

RELAÇÕES COMPLEXAS – Lembro de O Vencedor e penso nos títulos aos quais não se dão o devido valor no momento de seu lançamento. O filme de David O. Russell, ao entrar na vida de uma família de lutadores de boxe, retoma o universo que gravita em torno de relações complexas que une seres humanos, sejam eles de uma mesma família ou não, tratando-o com sutileza, para acrescentar algo, em vez de se calcar nos achados inventivos de montagem que acabam por ser um dos trunfos do filme de Scorsese e que foram copiados à exaustão.

Ao contar a história de Micky Ward (Mark Wahlberg), o lutador que tem a carreira e o brilho de certa forma empanados pela mitologia que cerca o irmão mais velho, Dicky Ecklund (Christian Bale), que chegou ao auge ao enfrentar o campeão de boxe Sugar Ray Leonard e hoje é um drogado, David O. Russell retoma aquele halo familiar de relações próximas, complexas e determinantes, importante na resolução de todas as coisas, presente no filme de Scorsese, e o devolve em um outro registro.

Aqui há o irmão que, não obstante todas as insconstâncias de sua vida como lutador e com as drogas, insiste em treinar Micky. E uma mãe, Alice (Melissa Leo), que agencia o lutador ascendente, mas fecha os olhos para as trapalhadas e reafirma a mitologia que cerca a carreira de Dicky. E, de novo, uma namorada, Charlene Fleming (Amy Adams), que será crucial na condução de Micky a um outro estágio, com novos agentes, que também trará tantos dissabores, mas depois, enfim, uma posição mais confortável: de volta à família, ao ambiente que se pretende e parece que se tornará, de fato, de bons companheiros.