O universo lírico, mágico e surpreendente de Boi Neon, segundo longa de ficção de Gabriel Mascaro

Boi Neon

Cazarré: mergulho nos bastidores das vaquejadas em belo perfil que integra homem e natureza Foto: Divulgação

O cineasta pernambucano transita com especial desenvoltura entre polos extremos  em Boi Neon, seu segundo longa de ficção, que chega agora aos cinemas cercado de expectativas.

O filme já foi exibido em mais de 30 festivais, tem distribuição garantida em 15 países e ganhou 14 prêmios, entre eles o especial do júri da Mostra Horizontes do Festival de Veneza e o de direção em Marrakech, entregues, respectivamente, pelos presidentes, os cineastas norte-americanos Jonathan Demme e Francis Ford Coppola.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro que foge aos estereótipos. Ao mesmo tempo em que prepara os bois para as vaquejadas, recolhe pedaços de pano do polo industrial de confecção da região e restos dos rabos dos animais para os adereços da vestimenta.

Seu sonho é ser estilista. Entre uma competição e outra, toma as medidas de Galega (Maevis Jinkings), motorista de caminhão com quem divide o espaço dos bastidores dos rodeios e mãe de uma menina (Cacá – Alyne Santana) que quer mais é estar em meio aos bichos.

Os modelos e padrões são naturalmente reinterpretados nesse filme inspirado pelo contato de Mascaro com o mundo dos vaqueiros.

Marcado pelo erotismo e a sensualidade, Boi Neon é delineado por um realismo poético que vai buscar seus melhores momentos em sequências que, antes mesmo de parecerem desconcertantes, encantam pela sensibilidade, como o sexo entre Iremar e Geyse, a segurança grávida da fábrica de confecções, interpretada por Samya de Lavor.

Aliás, Juliano Cazarré, atualmente em destaque na novela A Regra do Jogo, como McMerlô, é puro trato naturalista no filme. O personagem  aparece em nu frontal no banho coletivo com os companheiros de trabalho, urinando ao ar livre depois de acordar e na citada cena de sexo que beira o explícito. E há um sentido nessa exposição do corpo.

Como em Ventos de Agosto, de 2014, o primeiro filme de ficção do cineasta, Boi Neon mostra um belo perfil  de situações que integram os personagens à natureza pura e simples. Mascaro sonda os mistérios dos organismos, demarcados por imagens que praticamente não distinguem o homem do animal.

São pedaços de vida, retalhos que ele recolhe aqui e ali para compor, como se dispusesse de agulha e linha, o núcleo do filme – um universo lírico, mágico e surpreendente.

Acesse os links e leia entrevistas com Gabriel Mascaro e Juliano Cazarré.