O trivial, o ridículo e o insólito em Trabalhar Cansa

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Trabalhar Cansa foi exibido fora da competição no Panorama

Apresentado na segunda noite do 7º Panorama Internacional Coisa de Cinema, Trabalhar Cansa, de Juliana Roja e Marco Dutra, é uma espécie de drama social misturado a filme de suspense e terror feito com economia de elementos dramáticos, mas resultado estável que coloca os realizadores numa zona de conforto entre seus pares do cinema brasileiro.

O filme participou da mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, e vem recebendo inúmeros elogios, ao contar a história da dona-de-casa que abre um minimercado em uma zona classe-média paulistana.

Trabalhar cansa identifica e reflete sobre um momento próprio, de busca de ascensão, oportunidade, uma janela para um pouco mais de estabilidade. E investiga o sonho particular de Helena, que quer uma alternativa à presença do marido, Otávio, como único provedor. Mas a sua investida e coragem para dar o pulo do gato de certa forma serão aplacadas pela notícia de demissão, de um emprego de 10 anos, que o marido leva para casa. Invertem-se aí os papeis nesse filme que não será apenas isso, mas deixa pairada no ar a angústia do casal determinada pelas incertezas dos novos tempos.

Acontecimentos estranhos entram, então, na ordem do dia de Helena, que percebe que o imóvel que alugou para o negócio não é tão ok quanto a corretora disse e que a empregada contratada para cuidar da filha do casal e fazer as tarefas do lar está tirando um pouco de sua ingerência e status familiar. Trabalhar Cansa poderia ser um thriller imobiliário, desses de causar apenas medo e pavor. Mas os diretores se cercam de simplicidade e de referâncias básicas, mas sutis, que tornam o filme mais interessante e sofisticado.

A principal delas é ao cinema de Roman Polanski, que é responsável por alguns momentos de extrema gravidade na abordagem do comportamento humano que se altera quando confrontado com o novo – uma espécie de novo lar que deflagra aquele estranho que nos habita, como em O Bebê de Rosemary e O Inquilino. Curioso foi Marco Dutra revelar, no bate-papo que teve com o público na noite de ontem, logo após a exibição, que alguém havia cometido suicídio no imóvel que eles alugaram para o minimercado de Trabalhar Cansa.

Lembro-me que o personagem de O Inquilino, interpretado pelo próprio Polanski, um polonês que aluga um apartamento em Paris e começa a ser espreitado pelos vizinhos, inicia um processo de obsessão, acusando aqueles que o rejeitam de querer matá-lo, ao saber que a última moradora do apartamento, interpretada por Isabelle Adjani, cometeu suicídio jogando-se da janela. Um objeto, me parece que um dente arrancado, que encontra alojado em um buraco feito na parede, é determinante em todo esse processo de loucura.

Em Trabalhar Cansa os resultados não são tão incisivos. Mas está ali aquela senhora, nos primeiros dias de inauguração do minimercado, que aparece reclamando da falta de um produto e logo logo sinalizará para os problemas deixados no imóvel pelos antigos inquilinos. Algo que está por trás das paredes, trava o ralo e incomoda pelo odor que infesta, macula o ambiente e atrai os cães que ladram e rondam furiosos.

Trabalhar Cansa é um filme para se ver com cuidado, observado o humor associado ao enfado e desesperança do marido a cada momento que se depara com o trivial, ridículo e insólito dos momentos em que participa de seleções para o novo emprego. Fina ironia que parece mesmo uma vingança surda, interior, gozada por Otávio, que encontrará, justamente em uma dessas ocasiões, seu elemento chave, sua hora de reestreia, seu grito primal, arrebatador.