O ressentimento e a compaixão segundo Asghar Farhadi, diretor de O Apartamento

Cineasta mantém narrativa que fala da relação entre casais em O Apartamento,
filme cotado para receber indicação de Filme Estrangeiro no Oscar
O Apartamento - pontocedecinema.blog.br
Rana (Taraneh Alidooshi) e Emad (Shahab Hosseini) o casal do filme iraniano

Um dos méritos do cinema iraniano é seguir o exemplo do neorrealismo no que o movimento italiano tinha de simplicidade e qualidade ao provocar comoção. Foi assim com Abbas Kiarostami (Através das Oliveiras 1994), que morreu no ano passado, é assim com Jafar Panahi (O Balão Branco, 1995), que segue fazendo filmes em condições as mais improváveis, sob o regime endurecido de seu país.

Em chave semelhante encontram-se demais cineastas como Asghar Farhadi (Procurando Elly, 2009), o diretor de O Apartamento, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e um dos candidatos a uma vaga na mesma categoria no Oscar 2017.  Vencedor dos prêmios de melhor roteiro, escrito pelo próprio Farhadi, e melhor ator (Shahab Hosseini) no Festival de Cannes, o filme forma uma espécie de trilogia sobre as relações entre casais com A Separação (2012) e O Passado (2013).

No centro da história, agora, Emad (Hosseini) e Rana (Taraneh Alidooshi), um casal de atores (ele também professor) que precisam deixar às pressas o apartamento onde moram porque o prédio está sob ameaça de desabamento. Aceitam a ajuda de um amigo e vão para outro imóvel antes ocupado por uma prostituta. Mas Rana é atacada por um possível cliente da antiga moradora que deixou os pertences em um quarto.

Em paralelo, Emad e Rana encenam a peça A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, que conta a história do fracassado Willy Loman e sua família como reflexo da derrocada do Sonho Americano. Emad interpreta Willy, o marido, e Rana a esposa. Farhadi se utiliza de um recurso de metalinguagem para falar também da sociedade iraniana. O que há de tão próximo entre o ator e o anti-herói de Arthur Miller?

Econômico no gesto, no olhar, no falar, Emad é quase uma súmula da arquitetura narrativa de O Apartamento, que se ergue em torno de elementos sutis que norteiam a vida do casal. O ataque a Rana não é mostrado; sugere-se, a partir de um sutil movimento da câmera que se aproxima da porta entreaberta do imóvel. É quase impossível dizer se a mulher, encontrada desacordada com um ferimento na cabeça,  sofreu alguma violência sexual.

Breves comentários sobre a condição feminina e as dificuldades enfrentadas pelos artistas no Irã se dão por meio de situações como a de uma mulher em um táxi que se sente incomodada por estar ao lado de Emad e pede para mudar de lugar.  Ele fala vagamente, depois, que a criatura agiu assim porque algum homem já a tratou mal no táxi.

“Então ela acha que todos serão mal-educados”, diz o homem, assim, tranquilamente, ao aluno que o defendeu. Do mesmo modo que não mostra qualquer abalo quanto à discussão que surge em torno da fala de uma atriz, que deveria estar nua em cena, mas veste um casaco vermelho certamente tolhida pelo rigor da censura iraniana.

Tudo isso se organiza dentro de uma estrutura que encontra a razão de ser na postura do homem diante do ataque à mulher, à luz da severidade que rege as relações naquele país.

Emad não descansa até encontrar o homem que agrediu Rana. Há uma construção narrativa que envolve ao mesmo tempo ressentimento e necessidade de vingança, mas também a possibilidade de compaixão, em grande sequência envolvendo o agressor, que se passa quase toda dentro do antigo apartamento.

Mas é preciso ver se  o casal (sobretudo Emad), uma vez ungido com a aura de humanismo que impregna o terço final do filme,  conseguirá sobreviver aos escombros, porque Willy Loman, já se sabe, foi destroçado.

Matéria problicada no jornal A Tarde.