O que Está por Vir faz Isabelle Hupper viver exercício de total liberdade

Atriz francesa chega com filme que deu a Mia Hansen-Løve prêmio de direção no Festival de Berlim

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Nathalie (Isabelle Huppert), a professora de filosofia, ao lado do ex-aluno Fabien (Roman Kolinka)

Há um  momento em que Isabelle Huppert, recém-saída de desempenho notável no não menos admirável Elle, de Paul Verhoeven, diz em O que Está por Vir: “Eu e meu marido ouvimos os mesmos discos há 20 anos. Brahms e Schumann. Já nãoaguentava mais”.

Huppert é Nathalie, professora de filosofia que naquele momento acaba de se separar do também professor Heinz (André Marcon) e está indo para as montanhas passar uma temporada com o ex-aluno Fabien (Roman Kolinka) e alguns amigos do rapaz.

Mulher de meia-idade, ela tem um casal de filhos adultos morando fora de casa, e quando pensa que o único entrave na vida pode ser sua mãe idosa, Yvette (Edith Scob), ouve à queima-roupa de Heinz que ele encontrou outra mulher e vai morar com ela.

O filme é de Mia Hansen-Løve, jovem diretora de 35 anos, dona de títulos prestigiados como O Pai de Meus Filhos (2009), Adeus, Primeiro Amor (2011) e Éden (2014). Ela é mulher do aclamado cineasta  francês Olivier Assayas (Acima das Nuvens, 2014), masestá muito longe de viver à sombra, como mostra o desempenho que obtém em festivais.

Com O que Está por Vir recebeu no início do ano o Urso de Prata de melhor direção em Berlim. Hansen-Løve  faz um cinema simples, de aparentes pretensões modestas, calcado na palavra, sem grandes reviravoltas e com influências da nouvelle vague, sobretudo do proverbial cinema de fala do grande Éric Rohmer.

Mas ninguém pense que é um filme chato em que só se discute filosofia. Antes calcada em dilemas juvenis, como mostra em Adeus, Primeiro Amor, Hansen-Løve (e Huppert ) se mostra muito à vontade em uma interface geracional.

Muito distante do terreno movediço que é o amor romântico, Nathalie, agora, passa a um outro registro, que é viver de acordo com a própria vontade. Um devir.  Finalmente, ela encontrou a liberdade. Uma liberdade total como nunca imaginou. E isso – e o filme – é muito bom.

Matéria publicada no jornal A Tarde.