O paraíso de Pedro Almodóvar: labirintos do amor materno em Julieta

Cineasta espanhol  mostra-se mais sereno ao investigar os mistérios do universo feminino

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Julieta faz revisão do melodrama clássico com elementos de tragédia   Foto: Divulgação

O filme é uma adaptação de três contos do livro Fugitiva (2004), da canadense Alice Munro, que ganhou o Nobel de Literatura em 2013. Seria chamado Silêncio, mas Pedro Almodóvar desistiu diante do projeto de Martin Scorsese de filmar o romance de mesmo nome do japonês Shusaku Endo.

O cineasta mantém a capacidade de se renovar e continuar impactando, ainda que preserve o próprio estilo. Em Julieta, demonstra  habilidade na articulação de gêneros narrativos em torno de uma revisão do melodrama clássico, com elementos de tragédia, que aparece como uma das constantes temáticas em sua carreira.

Como sempre ocorre, estamos em um labirinto. A adaptação é apenas um pretexto para destilar um universo dominado por cores vibrantes e pela discussão de questões de gênero, colocando em primeiro plano e investigando a psicologia feminina – aqui, também, sob a manta de um thriller em que a base é apenas o mistério.

Memórias
O cineasta percorre 30 anos na vida de uma mulher, interpretada por Emma Suárez, na meia idade, e Adriana Ugarte, na juventude. Esta mulher é Julieta, que desiste repentinamente de uma viagem para Portugal, com o atual companheiro (Lorenzo – Dario Grandinetti), e ao sair de casa encontra Beatriz (Michelle Jenner), amiga de infância de sua filha.

Será o pretexto para Julieta escrever uma longa carta que nos remete ao que seriam os seus primeiros momentos de professora de literatura, quando conhece o pescador Xoan (Daniel Grao) em uma viagem de trem. Dessa relação nasceu Antía (Blanca Parés), a filha já adulta que agora a mulher não vê há 12 anos.

É em torno de um abismo, o silêncio que mantém mãe e filha afastadas, que Almodóvar construirá a trama, toda ela desenvolvida em um clima de incertezas para o qual contribui substancialmente a trilha sonora de Alberto Iglesias que pontua o filme em referência à obra de Alfred Hitchcock.

Um momento é fundamental, quando a personagem discute com os alunos a trajetória de Ulisses, o personagem da Odisseia de Homero, em viagem de volta da Guerra de Troia.  A espera de Penélope pelo marido reflete os caminhos de Julieta ao amargar o desaparecimento da filha. Almodóvar, nessa espécie de épico intimista que é Julieta, está mais melancólico, menos bizarro.

Referências
Como de hábito no cinema do espanhol, há inúmeras referências. A mais notável, quando se opera a passagem de tempo e o rosto de Adriana Ugarte é substituído pelo de Emma Suárez como a evidenciar o segredo que aquela mulher guarda, naquele momento, profundamente abatida pela dor da perda.

É tão sutil, que nos remete à mágica presença de Angela Molina (citada em determinado momento do filme) e Carole Bouquet interpretando uma mesma mulher em Esse Obscuro Objeto de Desejo (1977), último filme do mestre Luis Buñuel, um autor caro à filmografia de Almodóvar. Ou ao momento em que se sobrepõem, face a face, Liv Ullmann e Bibi Anderson em Persona (1966), de Ingmar Bergman.

Aliás, a propósito de Bergman, em meio ao círculo de cores que dominam a obra de Almodóvar, o vermelho, em Julieta, a cada instante parece querer tomar a tela numa referência ao furor uterino que impregna Gritos e Sussurros (1972).

Na época em que lançou Gritos, Bergman falou exaustivamente sobre a lembrança da mãe como o motor na concepção do filme. Almodóvar cria em Julieta um impressionante registro de investigação do amor materno.

Paraíso
Desde a primeira fase, com o longa inaugural Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980) e sobretudo a partir de Ata-me!, em que acena para uma virada na carreira, o cineasta espanhol demonstrou saber orquestrar elementos tão distintos que elevam e encantam em meio a tanta crueldade.

Mas agora ele parece muito mais tranquilo e sereno. Vai ao encontro do paraíso perdido, como mostra o belíssimo plano final de Julieta.