O Palhaço lança um olhar terno ao mundo do circo

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Selton Mello dirige o filme e interpreta o palhaço Pangaré no filme que recebeu quatro prêmios em Paulínia

O projeto Cinema na Praça, da Fundação Gregório de Mattos, exibe gratuitamente o filme O Palhaço, na Praça Municipal, em Salvador, nesta quarta-feira (16/5), às 18 horas. Segundo a organização do projeto, a programação, que acontece em espaço aberto, pode sofrer alterações devido às condições climáticas. A seguir, leia crítica que publiquei no blog na semana de lançamento do filme nos cinemas, em outubro de 2011.

Entre todas as referências assumidas (ou não) de O Palhaço, dirigido por Selton Mello, que vão de Federico Fellini ao universo de Os Trapalhões, uma, talvez por ser a mais óbvia, é a menos citada: o filme Bye Bye Brasil, realizado por Cacá Diegues em 1979, que não apenas acompanhava a viagem de um pequena trupe de artistas mambembes, liderados por Lorde Cigano (José Wilker) em sua Caravana Holidei, mas era crítico, irônico e desencantado com um país cada vez mais esvaziado de suas tradições populares.

Em O Palhaço, essas tradições estão resguardadas em belos momentos que retomam o road movie rural de Cacá, devolvendo ao público, mais de 30 anos depois, um outro registro, não mais de enfado e desilusão: a cultura popular é o grande tema que emoldura a crise existencial do palhaço Pangaré (Benjamin), vivido pelo próprio Selton Mello, que já não sabe mais se quer apenas fazer rir e parte, com a certidão de nascimento nas mãos, em busca de si mesmo e de um ventilador que vai livrá-lo do calor insuportável.

Nesse sentido, a pergunta que o pai de Pangaré, o palhaço Puro Sangue (Valdemar), interpretado por Paulo José, faz ao filho é referencial: “O gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço. E você?” Repetida como uma espécie de leitmotiv, ela vai deflagrar a viagem de Pangaré, uma viagem que é a segunda do filme que se move pelo interior mineiro descortinando cidades em um período que parece o mesmo de Bye Bye Brasil.

Assista ao trailer de O Palhaço.

No filme de Diegues, Cigano cruza regiões do Brasil do pós-milagre econômico e das obras faraônicas do governo militar, como a Rodovia Transamazônica. Ao seu lado, a rumbeira Salomé (Betty Faria), Andorinha (Príncipe Nabor), o homem mais forte do mundo, e o sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior) com a mulher, Dasdô (Zaira Zambelli).

Em uma sequência antológica, o mágico Lorde Cigano explode, diante de padre, prefeito e toda a população de uma cidadezinha do interior de Alagoas, a televisão que exibia em praça pública a novela Dancin´Days e tirou todo o público de sua Caravana Rolidei.

Em O Palhaço, o máximo que se pode perceber dessa iconoclastia é um Selton Mello solitário em sua busca pela identidade olhando fixo para um aparelho de televisão ligado, sem imagens. No mais, a presença impagável, em participações especiais, de nomes como Jorge Loredo, o famoso Zé Bonitinho, Ferrugem, Fabiana Carla (de Zorra Total), Moacyr Franco, sem esquecer de Jackson Antunes e Tonico Pereira, vai situar o filme em uma clave rica de referêncial kitsch.

Cercado por uma trilha musical refinada que se apropria de temas como Eu Amo a Sua Mãe, de Lindomar Castilho, e Tudo Passará, de Nelson Ned, e por sequências bem-resolvidas como a do jantar com todo o elenco do Circo Esperança, na casa do prefeito, tomada por quadros nas parede que vão confirmar aquele apelo, O Palhaço é um filme sutil até mesmo ao se deter em vilanias como a que permite a menina Guilhermina (Larissa Mendonça) – que assume o olhar terno e ingênuo dirigido por O Palhaço ao mundo do circo – estrear no picadeiro no lugar da cigana Lola (Giselle Motta).

Veja cenas de Bye Bye Brasil

Matéria atualizada em 15/05/2012