O mundo de dois quarteirões e sonhos fantásticos do cineasta David Lynch

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Lynch: “Não precisamos de nada além da obra. O filme deve se bastar” Foto: Divulgação

Para quem ainda pensa em destrinchar os enigmas de David Lynch, A Vida de um Artista não é aquilo que se poderia chamar de solução. O documentário traz alguns atalhos para entender o cinema do diretor americano, mas nada que torne a tarefa assim tão tranquila.

Primeiro, porque o filme se recusa a ser uma espécie de narrativa absolutamente clara e linear sobre a  trajetória de Lynch. Segundo, porque o universo cinematográfico mais aparente do autor está pouco representado ali. Nada de menções a filmes antológicos e conhecidos como Veludo Azul (1986), Coração Selvagem (1990), A Estrada Perdida (1997) ou Cidades dos Sonhos (2001).

O documentário vai até Eraserhead (1977), o primeiro longa de Lynch, que ganhou notoriedade somente depois que o autor explodiu a partir da segunda metade dos anos 80. Havia Duna (1984),  e sobretudo O Homem Elefante (1980) era de arrepiar. Mas Veludo Azul foi além, muito além.

É como se em David Lynch – A Vida de um Artista os diretores Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm e Rick Barnes colocassem uma cortina diante da obra para revelar o homem que há por trás do criador.

A fumaça do cigarro do diretor, que por vezes surge em nuvens preenchendo a tela,  é a materialização dessa ideia. Por que então tentar esquadrinhar seu significado, se o fato em Lynch se torna tão fascinante quanto mais estranho ou bizarro se apresente aos olhos do espectador?

Não foi assim em Buñuel, Bergman, Fellini?

Não importa qual seja o significado – da enorme orelha decepada  de Veludo Azul, da caixinha de Cidade dos Sonhos, das criaturas extraordinárias que pululam a cada produção assinada pelo autor da série Twin Peaks -, o que Lynch parece ser, sempre, em uma vida simples e ordinária, é um contraponto ao seu próprio cinema perturbador e intrigante.

Isso já se confirmava, de certo modo, com Transcendendo Lynch (2011), documentário em que Marcos Andrade mostrava a trajetória do diretor de Império dos Sonhos  (2006) quando veio ao Brasil, em 2008, lançar o livro Em Águas Profundas e divulgar a Meditação Transcendental.

“Não precisamos de nada além da obra. O filme deve se bastar”, dizia o diretor em Transcendendo, ao assegurar que ele mesmo tinha que estar bem para criar obras tão estranhas. E é isso o que confirma o documentário, ao navegar sobre um Lynch que aparentemente não está nos filmes que conhecemos.

O artista plástico David Lynch, a família e sua imaginação. Como! Não há um trauma, algo absolutamente excêntrico nessa trajetória que justifique os labirintos a que o cineasta submete o espectador? Nascido classe-média em Missoula, Montana, nada parece mais plano e sereno que os pais e irmãos de David Keith Lynch.

O cineasta também já disse que as pessoas acham que não entendem o seu cinema, mas as ideias surgem justamente quando elas começam a refletir e discutir sobre ele. Isso é o que A Vida de Um Artista propõe, a partir de uma fresta que se abre em um mundo de ‘dois quarteirões’ onde cabem ‘sonhos fantásticos’.