Lech Majewsk recria quadro de Pieter Bruegel em narrativa de grande impacto visual

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O Moinho e a Cruz: recriação em narrativa cinematográfica do quadro A Procissão para o Calvário

No mínimo intrigante, O Moinho e a Cruz recria o quadro A Procissão para o Calvário, pintado por Pieter Bruegel, dá-lhe movimento com efeitos visuais belíssimos e descortina a vida flamenga no século XVI, durante a ocupação espanhola em Flanders, atual Bélgica.

Dirigido pelo polonês Lech Majewski, o filme conta no elenco com Rutger Hauer, Michael York e Charlotte Rampling. Foi exibido no 7º Festival Internacional de Cinema de Salvador, em 2011, e, este ano, no Festival Avant-première. Finalmente estreia no Circuito Sala de Arte nesta sexta-feira.

Não me consta que algum cineasta já se deu ao trabalho tão minucioso, em detalhes cênicos e no tempo de uma narrativa dramática de filme completo, de recriação de uma obra de arte quanto Majewiski o fez.

Charlotte Rampling interpreta a Virgem Maria e Rutger Hauer é o próprio Bruegel, que, nos poucos minutos de fala desse filme, explica o conceito de sua obra de arte ao amigo burguês, um colecionador de arte interpretado por Michael York.

A Procissão para o Calvário - pontocedecinema.blog.br

O quadro de Bruegel, pintado em 1564: óleo sobre tela (Museu Kunsthistorisches - Viena, Áustria)

A presença dos soldados espanhóis em Flanders é um pretexto então para uma reflexão sobre a dor e o sofrimento. E o filme caminha para a representação do sentimento caro aos cristãos, da paixão e do sacrifício de Jesus Cristo, deslocado para aquele momento histórico de opressão.

Como a pintura de Bruegel, toda impregnada de elementos e segmentações populares, o filme de Majewiski, que contou com locações na Áustria, na Polônia e na Nova Zelândia, é uma obra que apela aos sentidos.

E nos estimula a fixar e ao mesmo tempo deslocar o olho, como se diante de uma obra estática, por vários pontos da tela, em busca do movimento completo.

Pode ser a figura de uma mãe com filhos, um camponês parado, ou um grupo que ganha vida e caminha surpreendentemente no alto, além das montanhas. Um homem é açoitado e seu corpo amarrado em uma roda e suspenso numa estaca.

A arte, a música, parece o único brado contra esse estado de falta de liberdade. E o moinho, como a Torre de Babel, que também foi pintada por Bruegel, não seria a expressão do desejo de fugir da cruz e do calvário e estar mais perto do perdão e da santidade?

Não há o que separar: aqui tudo é pintura e cinema.

O BANQUETE DOS MENDIGOS – Não pude deixar de lembrar da sequência do Banquete dos Mendigos de Viridiana, filme que Luis Buñuel lançou em 1961, uma obra extremamente atípica sobre uma noviça que herda a mansão do tio que se enforca depois de tentar abusar dela sexualmente.

Em voto de castidade, espírito de benevolência e caridade, ela abre suas portas e por pouco não se torna vítima dos mendigos e necessitados.

Um anarquista, herege, um artista que parecia a cada filme, a cada fotograma de filme, acertar as contas com os burgueses, as convenções e a fé religiosa, Buñuel reproduz o quadro de Leonardo da Vinci que retrata A Última Ceia de Jesus Cristo com seus apóstolos.

Veja, a seguir, o quadro e a sequência do filme:

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