O homem que amava as mulheres, o rock e o surrealismo de Dalí

Serge Gainsbourg - pontocedecinema.blog.br

Gainsbourg (Eric Elmosnino) ao lado de seu alter ego

Posto abaixo o clipe da canção Charlotte Forever, do filme realizado em 1987 por Serge Gainsbourg. Um um dos escândalos da vida do artista francês,  ele introduz no cinema sua filha, a hoje Charlotte Gainsbourg de Melancolia e Anticristo, que então mal chegara à adolescência. É uma história passional envolvendo um pai e uma filha que acredita que ele seja culpado pela morte da mãe em acidente de carro.

Mas eu quero mesmo é falar sobre o filme em cartaz na cidade, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres (Gainsbourg – Vie Héroïque), dirigido por Joann Sfar, um dos renomados quadrinistas franceses da atualidade.

 

Pouco ou nada Sfar fala sobre Charlotte Forever. Aliás, Gainsbourg – Vie Héroïque não é uma dessas cinebiografias convencionais que deixam cair, folha por folha, todos os fatos da carreira do ídolo retratado. Nos créditos finais, o diretor diz que não quer rebaixar Gainsbourg à realidade. E que gosta de suas verdades, mas prefere suas mentiras. Nesse sentido, não ganham relevo a presença e a influência do pintor catalão Salvador Dalí na obra do artista que criou O Homem Com a Cabeça de Repolho e transformou a casa de número 5 da rue Verneuil, onde passou seus últimos anos, em verdadeiro bunker coalhado de obras de arte e dominado pelas cores escuras onde se sustenta, impoluta, a escultura de um esqueleto humano.

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Laetia Casta é Bardot

Mas Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres é um filme bem legal. Sobretudo porque nos apresenta Serge ao lado de uma estranha e fascinante figura, um boneco, espécie de alter ego, conselheiro, uma caricatura bem-humorada com orelhas e nariz imensos, mãos e dedos alongados que é uma demonstração da influência não apenas de Dalí, mas Pablo Picasso, em tudo o que ficou da vida de Gainsbourg.

A figura é uma representação do talento de Sfar na composição do filme, que corre léguas de uma definição enquanto cinebiografia didática e cartesiana da vida do grande músico francês.

 

Músico, pintor, escritor, cineasta, Gainsbourg, filho de judeus russos que fugiram para a França depois da revolução de 1917, cujo nome na realidade era Lucien Ginzburg, foi um mestre da canção francesa, da balada, do reggae, do rock, do iê-iê-iê.

Sobre ele, uma das melhores biografias é Serge Gainsbourg – Um Punhado de Gitanes, em que Sylvie Simmons revela um artista que se equilibra sobre o fio de uma navalha, entre a bebida e os maços e maços de cigarros que o levaram à morte em 2 de março de 1991. Era, então, um mestre adorado pelos franceses e ainda hoje muitos visitam seu túmulo no cemitério de Montparnasse e admiram, em peregrinação turística, os desenhos e pixações no muro da casa da rua Verneuil, em Saint Germain.

Simmons revela mais: autor da belíssima Je T’Aime Moi Non Plus, Serge Gainsbourg não teve maior penetração mundial porque não compunha em inglês. Mas sua influência foi desmedida entre as bandas inglesas de rock dos anos 1990. E não se pode pensar em nomes como Bob Dylan, Lou Reed e David Bowie sem dar os créditos necessários ao ícone de uma geração francesa. Serge Gainsbourg lançou, em 1976, um petardo no Brasil intitulado Amor Selvagem, com sua mulher Jane Birkin, e o queridinho de Andy Warhol, Joe D’Allessandro, originário  Je T’Aime Moi Non Plus.  Tórrido, cruel, sexualmente transgressor, o filme deve ter feito Fassbinder, o diretor de Querelle, corar de vergonha.

 

Aliás, brincadeiras à parte, as paixões de Gainsbourg, interpretado com admirável talento por Eric Elmosnino, são um capítulo no filme de Joann Sfar. Não pensem que serão investigadas com precisão cirúrgica, mas estão ali presentes suas conquistas mais notáveis, como a cantora Juliette Gréco, interpretada pela atriz francesa Anna Mouglais, de A Teia de Chocolate e Coco Chanel & Igor Stravinsky, Brigitte Bardot, em atuação fraca da modelo francesa Laetitia Casta, que, não obstante os pecados, está muito parecida com a atriz de E Deus Criou a Mulher, e Jane Birkin, encarnada pela atriz e modelo britânica Lucy Gordon, de Bonecas Russas, Frost e Homem Aranha 3, que cometeu suidídio, por enfocamento, logo depois das filmagens.

Mas uma das mais belas sequências de Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres, interessante subtítulo que nos remete ao clássico de Fraçois Truffaut, ainda que pareça paradoxal, é a presença de Laetia surgindo na pele de Bardot, imensa, em um travelling, por um corredor, em suas botas longas e casaco de pele de onça para entrar em uma relação conflituosa que culminou na primeira gravação de Je T’Aime Moi Non Plus. A música ganharia sua versão definitiva, depois, com o próprio Gainsbourg e Jane Birkin. Canção essa que virou o marco do homem que criou maravilhas como Bonnie and Clyde, Ballade de Melody Nelson, La Javanaise e Sous Le Soleil Exactement.