O homem intranquilo e angustiado de Bertolucci

O Último Tango em Paris - pontocedecinema.blog.br

Marlon Brando, no papel de Paul, em O Último Tango em Paris, realizado em 1972, vivia a angústia de estar no mundo

É necessário confrontar formas de ver e fazer cinema. Um exercício para cumprir com urgência, agora que estão à mão, em mostra retrospectiva do CineFuturo, que começa terça-feira, 13 filmes de Bernardo Bertolucci (1941), o cineasta que emergiu, como assistente de direção de Accatone (Desajuste Social, 1961), do cinema de poesia de Pier Paolo Pasolini.

Bertolucci viveu sob o calor dos filmes desde o começo da adolescência. Aos 12 anos já fazia seus experimentos. O filho do poeta Attilio Bertolucci foi para a universidade de Roma e também virou poeta. Aos 21 anos, em 1962, lançou seu primeiro filme: A Morte – La Commare Seca, sobre a investigação do assassinato de uma prostituta. Mas foi em 1964 que obteve repercussão com Antes da Revolução, um manifesto poético ao mesmo tempo que um hino de amor à cidade onde nasceu, Parma, livremente inspirado em A Cartuxa de Parma, de Stendhal.

Fabrizio, um rapaz de 22 anos apaixonado por cinema, interpretado por Francesco Barilli, vive dilemas comuns à juventude intelectual relacionados à indecisão sobre o engajamento político, enquanto mantém uma história de amor com a tia. Nesse particular, formava-se ali, também, o perfil do homem típico bertolucciano, que encontra suas variadas facetas, mantendo-se as devidas distâncias entre um e os outros, nos demais personagens do cineasta italiano.

DUPLICIDADE – Depois de dirigir Agonia, do filme em episódio Amor e Raiva (1967), trocando experiências com o grupo Living Theatre de Nova Iorque, tendo como base os princípios do Antonin Artaud, Bertolucci escreve na tela outro poema, Partner (1968), trazendo à tona, em um dos seus filmes mais difíceis, agora inspirado em Dostoievski, o professor de teatro Jacob, interpretado por Pierre Clementi, que se debate contra a própria instabilidade, encontrando O Duplo a que se refere o conto do escritor russo, que é ele mesmo, o personagem, existindo apenas para si, ao tentar procurar o registro da sua falta de sintonia artística e poética.

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Dominique Sanda e Robert De Niro em 1900, de 1976

Ao lado de Stefania Sandrelli, que se tornaria presente naquela fase de grande criatividade de Bertolucci, assim como Dominique Sanda, Pierre Clementi é quase uma âncora no filme. O próprio cineasta admite em entrevista que estavam em Roma, filmando com os alunos do Centro Experimental, e Clementi viajava todos os finais de semana para Paris, de onde retornava com a atmosfera que imperava na França no período.

Liberem as paixões, ejaculem seus desejos, roubem sua felicidade, eram as palavras de ordem gritadas pelos estudantes franceses no Maio de 1968, evocando um sentimento de liberdade que domina Partner de ponta a ponta. O cineasta voltaria ao mesmo assunto, em 2003, em Os Sonhadores, marcando o encontro de um estudante norte-americano e um casal de irmãos franceses na Paris de tantos protestos e barricadas. O poema não era mais tão visceral, mas necessário para mostrar, segundo o cineasta, que era justo continuar sonhando 35 anos depois.

Mas a chama criativa de Bertolucci, ali, em 1968, estava apenas se formando. Baseado em um conto de Jorge Luis Borges, Tema do Traidor e do Herói, ele nos traz, em A Estratégia da Aranha (1970), um novo perfil desmembrado na figura de Athos Magnani, personagem interpretado por Giulio Brogi que, retornando ao conceito de duplicidade exposto anteriormente, está de volta a sua cidade natal para um confronto com o passado, trafegando pelos labirintos pavimentados pelo pai, ambos interpretados por ele mesmo.

O CONFORMISTA – Uma sensação de mal-estar nos perpassa quando vemos Jean-Louis Trintignan atender ao telefone, recostado na cabeceira da cama de um hotel em Paris, onde está em viagem de lua de mel, logo no início de O Conformista (1971). Marcello, o personagem que encontrou seu caminho entre os fascistas, aguarda apenas o momento de ir ao encontro de um velho professor dissidente do regime de força de Mussolini, que, a essas alturas, marcado pelo regime, está com os dias contados.

Perfeito no papel de Marcello, Trintignan é a representação do espírito fiel da angústia da solidão, no período que antecede ao ato final, em flashbacks que compõem uma narrativa entrecortada que vai buscar seus primeiros momentos ainda na Itália e nas relações do personagem com sua noiva, interpretada por Sandrelli. Bertolucci estava ali apenas às vésperas de protagonizar um dos mais famosos escândalos do cinema, O Último Tango em Paris, tendo ao lado Marlon Brando, no papel de Paul, o norte-americano de meia-idade, desencantado de tudo, que encontra em Jeanne, Maria Schneider, um refúgio sexual.

O filme foi censurado em muitos países. Na Itália queimaram-se cópias. Quando chegou ao Brasil, com os ventos da abertura política, a sensação de que se havia feito muito barulho por nada. Escândalo mesmo era o filme e sua atmosfera dominada pelo personagem dilacerado de Marlon Brando. Não dá para esquecer os momentos finais: um tiro, o ator olha para o alto e vê a cidade. Antes de sucumbir, tira o chiclete da boca e prende-o sob a balaustrada do terraço do apartamento. Corte: Jeanne, em um fluxo de pensamento, diz a nós tudo aquilo que lhe é conveniente e vai contar para a polícia. Fecha-se então o filme com a maravilhosa música de Gato Barbieri.

NOTÁVEL – Estava ali plantada a semente para a notoriedade internacional de Bertolucci nos anos a seguir. Primeiro com o monumental 1900, filme de mais de cinco horas com o qual pretendia sintetizar toda a história do século 20 por meio da trajetória de dois amigos, um burguês, outro proletário, Alfredo (Robert De Niro) e Olmo (Gérard Depardieu), que se estende até 1945, final da Segunda Guerra Mundial.

O Último Imperador - pontocedecinema.blog.br

O Último Imperador, de 1987, recebeu nove Oscar

Depois veio Tragédia de Um Homem Ridículo (1981), com Hugo Tognazzi, que na época não foi bem recebido, e La Luna(1979), com Jill Clayburgh no papel de uma cantora de ópera em turnê pela Itália que se depara com o filho adolescente viciado em heroína. Bertolucci disse na época que o filme nasceu de uma imagem que guardava da infância, quando sua mãe o colocava na bicicleta e pedalava, de forma que ele podia ver ao mesmo tempo a lua e o rosto dela. Fica a imagem forte e recorrente desse filme de impulsos incestuosos.
 
Bertolucci então mergulhou de vez no grande cinema ao transpor para a tela a história de Pu Yi, o último imperador da china, nomeado aos três anos de idade e que viveu uma vida de fantoche até retornar à Cidade Proibida, já com os anos avançados, como um mero coadjuvante, um quase-nada. O Último Imperador (1987) concorreu a 11 Oscar e ganhou nove. Parece maldição do Oscar: Bertolucci continuou fazendo filmes, uns menos tocantes que outros, como O Céu Que nos Protege (1990), O Pequeno Buda, Beleza Roubada (1996), Assédio (1998) e Os Sonhadores (2003), mas não com o mesmo prestígio que o cercou durante anos em sua trajetória de cineasta engajado. A mostra em sua homenagem, no CineFuturo, é um momento para rever isso.

Retrospectiva Bernardo Bertolucci
De 25 a 30/7
Icba (Instituto Goethe)
Onde encontrar: Vintage Vídeos