O filme de negação e liberdade do iranianio Jafar Panahi

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Em prisão domiciliar, Jafar Panahi examina, com acuidade extrema, seu exercício de solidão e falta de liberdade

Se só tem tu, vai tu mesmo, diz-se, no dito popular. Partindo do princípio de que estava proibido de filmar, mas não de atuar, o cineasta iraniano Jafar Panahi convidou o amigo, também cineasta, Mojtaba Mirtahmasb, para filmá-lo durante um dia em sua prisão domiciliar. O resultado é uma espécie de “não-filme” que chegou ao Festival de Cannes do ano passado praticamente clandestino, foi exibido em Veneza, na Mostra de São Paulo, mas só estreou em Salvador no apagar das luzes de 2011.

Isto Não É Um Filme é um manifesto cinematográfico preciso contra o autoritarismo e um libelo ao exercício democrático que coloca Panahi frente às câmeras em sua residência, em Teerã, depois de ser preso em março de 2010, ter sua casa invadida e sua coleção de filmes apreendida, o que vem provocando inúmeras manifestações de apoio ao cineasta, incluindo aí nomes como o do norte-americano Steven Spielberg e o da atriz francesa Juliette Binoche.

Ninguém pense que vai ver um filme de fervoroso confronto político. Panahi está em seu apartamento em Teerã. Ali, apenas o detalhe de um dia, em que se pontua a conversa por telefone com a família e com a advogada. É certo que pouco ou nada vai mudar na vida daquele homem. Que ele espere, no máximo, uma redução da pena, diz a advogada. E então Panahi se entrega ao processo de descrição desse estado de coisas. É simples, mas, se bem visto, contundente.

O filme parte, portanto, de uma negação para ser, enfim, uma afirmação. Aquela é a grande frase do filme, quando Panahi diz que está proibido de filmar, mas não está impedido de atuar. E como atua. Desfolha-se em sua vida interior que inclui o carinho feito à iguana da filha que passeia pela estantes da casa e sobre o seu corpo até a revelação de parte do argumento de um filme, impossibilitado de fazer, que contempla a vida de uma garota que, presa em casa pelos pais, que não querem vê-la estudando, tenta se matar.

Não destituído de humor, pleno de seriedade, o filme confronta instrumentos do cotidiano de uma vida privada de liberdade. Há uma garota que quer sair de casa e deixar seu cão irritado aos cuidados do cineasta, há um momento em que ele relembra os bastidores do filme O Espelho, em que a menina que está com o braço engessado desiste de atuar, e, enfim, ao deparar-se com o rapaz que recolhe o lixo nos apartamentos, Panahi, ele mesmo, como que se rebela, e acompanha o garoto andares acima e abaixo até se dar conta de que a rua explode em festa, mas ele estará de volta, cativo, ao seu apartamento.

Inicialmente preso em seu apartamento em Teerã sob acusações de participação em manifestações no período das eleições que levaram Mahmud Ahmadinejad à presidência do Irã em 2009, Panahi é diretor de ótimos filmes como O Círculo e O Espelho. Foi primeiramente condenado a 6 anos de prisão e impedido de filmar por 20. Também está proibido de viajar e de dar entrevistas. Sua pena foi confirmada no ano passado pelo tribunal de recurso, por “atividades contra a segurança nacional e propaganda contra o regime”.

Não se sabe, portanto, o destino cinematográfico deste que é um dos cineastas mais criativos do Irã. Panahi foi convidado na última segunda-feira, pelo diretor do evento, Dieter Kosslick, para participar do Festival de Berlim, que acontece de 9 a 19 de fevereiro. Foram chamados ainda, com honras, os colegas Mohammad Rasoulof e Mehdi Pourmoussa, também presos, em uma maratona que terá Asghar Farhadi, que em 2011 venceu o Urso de Ouro com o filme A Separação, como integrante do júri. Certamente Panahi, Rasoulof e Pourmoussa não estarão em Berlim.