O estranho que nos habita

Um Estranho no Lago - pontocedecinema.blog.br

Um Estranho no Lago, filme de Alain Guiraudie, premiado como melhor diretor em Cannes

Um Estranho no Lago deu o prêmio de melhor diretor a Alain Guiraudie, na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes deste ano, e acaba de ser escolhido como melhor filme de 2013 pela prestigiada revista francesa Cahiers du Cinéma.

É um suspense nada convencional, tematicamente, e mesmo inovador em sua forma, que nos dá conta de um mundo estranho, não importam gênero, sexo.

Por isso, acredito, não há que se ter receio em considerar Um Estranho no Lago um filme gay, como se houvesse nisso uma desaprovação, uma propensão a colocar no limbo sua natureza universal.

Com cenas de sexo entre homens, o filme é o que importa. É como O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, que ainda hoje provoca impacto e surpreende deus e o mundo – seja heterossexual ou não.

Não interessa a quem, mas o interessante mesmo é o que e como se diz. E Um Estranho no Lago diz com extrema naturalidade, a partir da iniciação do público em uma história que acontece em local bucólico, no verão francês, com gays à beira de um lago se banhando, tomando sol e fazendo sexo no bosque.

Estamos no paraíso. O quadro mostra isso com tranquilidade. São planos, muitos deles fixos e recorrentes, que vão e voltam captando o momento do lugar.

O vento e a vegetação, a chegada, os carros estacionados, o banho, o flerte, elementos que, mais adiante, friccionados, se tornarão objetos de tensão que vão conferir uma atmosfera particular ao filme.

Porque há um crime. E esse crime sabemos quem o cometeu, logo que se estabelece o eixo dramático formado por quatro personagens básicos:

Um homem que chega ao lago, se interessa por outro atlético, namorado de um terceiro ciumento, e faz amizade com um quarto tipo, um gordinho triste e solitário, que frequenta o lugar apenas de forma contemplativa, sem interesse sexual.

A essa estação plácida, e em suspensão, se integrará o inspetor de polícia que tenta incutir sentimento grave aos fatos.

Lembramos, aqui, da desconstrução narrativa do thriller convencional, no Antonioni de Blow Up – Depois Daquele Beijo, O Passageiro: Profissão Repórter e mesmo A Aventura.

Contrapomos esta aura do grande cineasta italiano à atmosfera e ao clima que nos remetem ao clímax e ao desenlace nos filmes do mestre do suspense, Alfred Hitchcock, para distinguir Um Estranho no Lago como algo além do respeitável.

Sim, sabemos logo quem é o assassino. Mas, somente ele é o estranho? Ou também o estranho no lago é, quem assiste, representado por aquele gordinho diferente, singular, que caminha vagarosa e deliberadamente para a morte?