Como um arquiteto da imagem, o diretor pernambucano ergue a trama em Aquarius

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A jornalista Clara perdeu o marido há quase 20 anos e hoje luta para preservar sua memória Foto: Divulgação

Aquarius, além de Kleber Mendonça Filho, é todo Sonia Braga, que não mediu dificuldades quando leu o roteiro do filme que carrega consigo  quase por inteiro. Seja como a personalíssima e inflexível Clara, empunhando cartazes, ao lado da equipe em Cannes, ou no Festival de Gramado, onde foi homenageada na última sexta-feira (26.8) com o Troféu Oscarito.

Curada de um câncer ainda jovem, Clara perdeu o marido há quase 20 anos e hoje luta para preservar sua memória. Ela não quer vender o apartamento. Mãe de três filhos já adultos, vive ali sozinha com seus livros e discos. Não há como demovê-la da ideia de não deixar a casa onde nasceu e criou os filhos.

A despeito de ser um filme de embate e enfrentamento, a postura da mulher é de leveza. Confirmam isso o nome Clara e a fachada do prédio onde mora, que aparece em três tempos banhada em rosa, azul e branco.

Seria mesmo um paradoxo – tendo em vista o plano que o engenheiro Diego (Humberto Carrão) arma para expulsá-la de casa -, não fosse a luminosidade que Sonia Braga imprime à personagem.

Aquarius é movido pela ideia de deixar presente não apenas na memória aquilo que se acumulou e recolheu em uma história. Como em O Som ao Redor, Kleber Mendonça vai urdindo. Cria atalhos e tece uma bela teia de relações humanas.  Na contramão da especulação imobiliária, como um arquiteto da imagem, ele ergue, em vez de demolir, a trama.