O cinema político, engajado e profundamente humano de Wajda

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Krystyna Janda (vive ela própria e Marta) e Pawel Szajda (Bogus) em recriação da Pietà (abaixo) no filme Cálamo

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Houve um tempo em que a simples menção de um filme do cineasta polonês Andrezej Wajda era sinal de que tínhamos de marcar, com comoção, presença diante da tela. Não somente ele, mas Jerzy Kawalerowicz, do fenomenal Madre Joana dos Anjos, Andrezej Munk, do inacabado A Passageira, Wojcleck Has, de O Manuscrito de Saragoça. Batiam os ventos de uma nova onda no cinema. A nouvelle vague francesa estava às portas e era a bandeira de um movimento mundial cuja palavra de ordem, a liberdade, no sentido estético e comportamental. Não peguei esse tempo, mas como ressoaram, ainda nos anos 70 e 80, os ecos dessa modernidade.

Estamos falando dos anos 50 e dos intermináveis e revolucionários anos 60. E, é claro, o que nos interessa fundamentalmente é a carreira de Wajda, o maior cineasta polonês, filho da Escola de Lodz (assim como os demais, incluindo Roman Polanski), que já vinha dos anos 1950 com a famosa trilogia formada por Geração (54), Kanal (57) e, sobretudo, Cinzas e Diamantes (58), talvez sua obra-prima, cujo sucesso abriu as portas do cinema polonês para o mundo.

Pois é, Wajda, que surge como presença fundamental na programação do Festival Internacional de Cinema de Salvador, realizado pelo circuito de cinema SaladeArte, não como objeto de museu, mas com parte invejável de uma das melhores cinematografias do mundo que inclui o inédito e fenomenal Cálamo/Tatarak. Último filme de Wajda, realizado em 2009, que mostra um cineasta, aos 85 anos de idade (ele nasceu em março de 1926) em plena forma em suas interferências estéticas, um jovem e revolucionário Andrezej Wajda, o que, aliás, não é para surpreender, tomando-se como exemplo, hoje, o cinema fundamental de nomes como o nonagenário Alain Resnais e o centenário Manoel de Oliveira.

Esqueçamos, por ora, todos aqueles filmes que nos fizeram cair de joelhos diante de Wajda, depois de sua trilogia. E nessa leva encontramos títulos como Terra Prometida, O Homem de Ferro, Sem Anestesia, Um Amor na Alemanha, Danton – O Processo da Revolução e tantos outros que foram lançados satisfatoriamente nos circuitos comercial e alternativo do Brasil. Profundamente engajado, sem, no entanto, ser panfletário, o cinema de Wajda debruçava-se sobre as contradições políticas de seu país e era profundo e crítico em relação ao regime soviético e opositor, mesmo, do stalinismo na Polônia. Foi o processo de desestalinização, não por acaso, que possibilitou a explosão do cinema de Wajda e seus pares no mundo.

Mas aqui nessa mostra, entre os mais conhecidos de Wajda, temos apenas O Homem de Mármore (1976), talvez seu melhor filme depois de Cinzas e Diamantes, que forma um díptico com O Homem de Ferro, Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1981, e O Maestro, que conta com Sir John Gielgud no elenco. Agora nos interessa muito mais O Homem de Mármore, que marca a estreia da atriz Krystyna Janda no papel da jovem Agniezka, que tenta realizar um filme sobre o stalinismo e para isso vai fundo, como o Orson Welles de Cidadão Kane, na terrível história do operário Mateusz Birkut, interpretado por Jerzy Radziwilowicz, que, como tantos outros, é devolvido como bagaço depois de servir ao regime.

O Homem de Mármore é importante políticamente, pois provocou na sociedade inquietações que resultaram na criação do primeiro sindicato independente do Partido Comunista, o Solidariedade de Lech Walesa. Mas também, enquanto exercício de metalinguagem, ao introduzir em sua narrativa a reflexão sobre o fazer artístico por meio da realização de um filme dentro do filme. Nesse sentido, dialoga com Cálamo, o filme mais recente de Wajda, que traz de volta Krystyna Janda no papel dela mesma, em um fluxo contínuo de reflexão sobre a morte do marido, Edward Klosinski, um reconhecido operador de cinema polonês ao qual o filme é dedicado, e Marta, a personagem do conto de renomado escritor Jaroslaw Iwaszkiewicz, adaptado por Wajda.

Marta, a mulher de um médico, não sabe que está perto de morrer. Ela encanta-se por um garoto de 20 anos, Bogus (Pawel Szajda), com quem viverá seu momento decisivo em meio ao cálamo, vegetação que se desenvolve no rio onde se dá o primeiro e derradeiro encontro, em pleno momento das filmagens, que será um ponto de interseção entre vida e morte. A realidade e a verdade criada de “duas existências, onde uma caminha para o fim prematuro e a outra só acaba de entrar para a maturidade” – conforme mostra Andrzej Bukowiecki, no texto que assina para o catálogo – emolduradas, afinal, pela recriação da Pietà de Michelangelo.

Belíssimo os planos do mergulho de Bogus e em seguida de Marta, em momento de extrema eficiência dramática em que um corte brusco coloca a personagem na mesma dimensão que a atriz Krystyna Janda, já confrontada com uma primeira morte, a do marido, em seu desespero correndo sobre a ponte, em meio à chuva, em um dos mais belos momentos do cinema que já vi nos últimos anos. É tudo mentira, é tudo verdade neste filme de Andrezej Wajda que nos remete, imediatamente, ao tour de force existencial da equipe de filmagem de Tudo à Venda.

Realizado em 1968, Tudo à Venda é um filme dentro de um filme, feito no momento em que desaparece o ator principal, que vem a ser, em uma dimensão ao simbólica, Zbybniew Cybulski, talvez o ator mais influente de seu país até hoje. Considerado o James Dean polonês, Cybulski trabalhou com Wajda em Geração, Cinzas e Diamantes e Os Inocentes Charmosos. Dentre seus papeis que inflenciaram uma geração, está o do oficial belga do delirante O Manuscrito de Saragoça (1964), obra-prima de Wojcleck Has. Morreu (não sem mandar um recado para Wajda: “Digam a ele que ainda vai sentir saudade de mim”) ao cair de um trem em Wroclaw, Dolnoslaskie, na Polônia, pouco antes da realização de Tudo à Venda, que o cineasta preparava para ele.