O cinema de solidão de João Pedro Rodrigues

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Morrer Como Um Homem volta a ser exibido hoje (20/8) à tarde no 7º Panorama Internacional Coisa de Cinema

O cineasta português João Pedro Rodrigues, que tem três longas exibidos no 7º Panorama Internacional Coisa de Cinema, afirma que não pretende ficar preso a um estilo. E realmente os dois títulos já apresentados, Morrer Como Um Homem, que abriu o evento e que será reprisado hoje (20/8) à tarde, e O Fantasma, visto ontem e programado para nova sessão na terça-feira, são bem distintos, embora tratem do universo homossexual.

Todos os três títulos (o outro é Odete, que será exibido segunda e quarta-feiras) vão por esse caminho, o que, de cara, leva à busca de referências entre o segmento retratado. Não há como negar uma associação com o espanhol Pedro Almodóvar, o alemão Fassbinder e referências outras colhidas aqui e ali, de Hollywood, com ecos do musical, do melodrama e do cinema enxuto e rigoroso do francês Robert Bresson.

A idéia, no entanto, não é desprezar a inventividade de cada um dos filmes do cineasta, que revela estilística própria e ato criador como em Morrer Como Um Homem, que trata da vida da travesti Tônia, uma artista do mundo do espetáculo de Lisboa, já chegando à meia-idade, que vive às turras com seus pares da casa em que comanda o show e inventa uma nova jornada com seu namorado, Rosário, um drogado que tem como um filho, ao mesmo tempo que amante.

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O Fantasma volta a ser exibido na terça-feira

A renúncia e a solidão características da personagem dão o tom quando se pensa no musical e no melodrama inseridos no contexto de Morrer Como Um Homem, calcado na abnegação de Tônia em sua relação com o namorado como que para compensar o conflito que vive com o filho, Zé Maria, que parece ao mesmo tempo real e simbólico.

Nada é assim extremamente aparente ou inoportuno. O melodrama surge de toda a angústia de Tônia ao se deparar com essas dificuldades da vida. O musical parte de um movimento interno, e não expansivo, como, por exemplo, o hollywoodiano, mas pousado nos detalhes, no sentimento interior, nas canções que não apenas ela, Tônia, mas os outros personagens vivem a cantarolar, em um impulso melô (referente a melodia e melodrama), dentro desse universo de sofrimento, fados e solidão que se impõe em Morrer Como Um Homem.

Como há lamentações no filme de Joao Pedro Rodrigues, belo como um Fassbinder e o Almodóvar de todas as fases. A comparação não surge aleatória, porque esses grandes cineastas são pilares na redefinição do melodrama tendo como farol o Douglas Sirk de Imitação da Vida, Palavras ao Vento e tantos outros filmes do diretor alemão que, nos Estados Unidos, tratou as emoções baratas e flutuantes com espírito de inventividade e rigor incomum.

Humor peculiar, característico, se instaura definitivamente em Morrer Como Um Homem quando, a partir de um momento, o cineasta se recusa a conduzir o road movie, durante a viagem de Tônia e Rosário, e estaciona, introduz outros personagens, notadamente Maria Baker, uma travesti determinante, ferina e sarcástica, em constante tensão e eterno e resolvido isolamento.

Maria Baker adquire significado próprio (remetendo-nos imediatamente a personagens antológicas e fetiches no universo gay, como a Veronika Voss de Fassbinder, a Blanche DuBois de Elia Kazan/Tennessee Williams e a Norma Desmond de Billy Wilder) e dá um novo sentido à vida de Tônia, que retorna ao lar para resolver seu problema com as amigas e, de certo modo, com o filho e o próprio namorado que a confinava à solidão.

Aliás, a solidão que domina Sérgio, o jovem de O Fantasma que vive do trabalho de coleta de lixo no setor norte de Lisboa e se entrega a um isolamento extremo, que o torna ermo, essencialmente material, destituído de sentimento, desenfreado sexo e corpo – o corpo que Tônia procura velar em seu universo de perucas, rosários, saltos altos e vestidos longos –, que o levará a um estágio extremo de vazio e lodo.

Filme seco, direto, sem abas nem arestas, O Fantasma expressa mesmo a rigorosidade bressoniana, mas vai se agregar, em todos os sentidos, de forma brilhante, à expressividade cênica, corporal, ao furor e à angústia e ausência de lágrimas expressada no brutal ensaio cinematográfico feito por Fassbinder, em 1982, no seu apagar das luzes, do Querrelle de Brest de Jean Genet, este, escritor e dramaturgo, desde já, outro nome caro à breve e extremamente promissora filmografia de João Pedro Rodrigues.