O cinema de Agnès Varda em Salvador e no Festival de Cachoeira

As Praias de Agnès - pontocedecinema.blog.br

A cineasta Agnès Varda volta às origens no filme As Praias de Agnès

Quem é essa mulher de 83 anos de idade, que tem uma mostra especialmente dedicada a ela no CachoeiraDoc – II Festival de Documentários de Cachoeira, que acontece de 7 a 11/12 na cidade do Recôncavo baiano, cujo último filme, As Praias de Agnès, realizado em 2008, encontra-se em cartaz no Cinema da Ufba?

Nascida em 1928 em Bruxelas, filha de pai grego, Agnès Varda é uma cineasta e roteirista radicada na França que aprendemos a amar com pelo menos dois dos seus filmes:

As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur), de 1965, exercício sobre o amor e suas variantes com funcional e primoroso estudo de cores, e, sobretudo, Cleo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7), de 1961, filme que dura o tempo real de uma espera em que uma artista com suspeita de câncer aguarda o momento de pegar o resultado do exame. Enquanto não dá 7 horas, ela vai viver a vida em uma trajetória de encanto e poesia pelas ruas da cidade.

Agnès Varda dirigiu seu primeiro longa-metragem em 1954, La Pointe Court, um precursor da nouvelle vague francesa. Em seguida, a despeito de incursionar pelo campo ficcional, com notável sensibilidade, como demonstram os dois filmes citados, passando por uma militância feminista, sua carreira se orientou em boa parte pelo lado documental.

É isso o que interessa ao II CachoeiraDoc, que apresenta, de 8 a 10/12, em meio à programação, uma mostra dedicada à cineasta, com a exibição dos filmes A Ópera Mouffe (1958), Os Panteras Negras (1968), Resposta de Mulheres (1975), Saudações, Cubanos! (1963), Ulisses (1982), Daguerreótipos (1975) e As Praias de Agnès (1988).

E que, em seu Ciclo de Conferências, mantém uma discussão, no dia 9/12, sobre O Feminino no Documentário Contemporâneo, em que a pesquisadora de cinema Carla Maia debruça-se sobre o tema “a partir da obra de Agnès Varda e de alguns filmes realizados por mulheres no Brasil contemporâneo”.

Exibido no mês passado no Festival Internacional de Cinema de Salvador, As Praias de Agnès é um curioso auto-retrato de 110 minutos em que Agnès Varda, em um exercício sobretudo documental, viaja às origens, na Bélgica, para, a partir dali, construir um minucioso painel sobre sua trajetória que inclui a ida em criança para a França e a convivência com grandes artistas do século passado.

Varda inclui nessa jornada a família, os estudos, a opção pela fotografia e o cinema e os companheiros da nouvelle vague, notadamente Jacques Demy, o diretor de obras-primas como Os Guarda-chuvas do Amor e Pele de Asno, seu marido, que morreu em 1990 de complicações causadas pelo vírus da Aids, a quem dedica momento especial, de abnegação e virtude.

Auto-referente, como não poderia deixar de ser, As Praias de Agnes é um filme que nos propõe um mergulho no fato documental, marcando a trajetória de uma vida, por meio de um olhar curioso que transporta a tudo que a circunda, inclusive o fato ficcional.

Algumas imagens são mais que reveladoras, como os espelhos plantados em uma instalação à beira-mar: surpreendem ao mesmo tempo que provocam uma certa aflição do olhar. Trata-se, portanto, As Praias de Agnès, de um filme encantado.

Para mais detalhes, acesse o site do II CachoeiraDoc.